Principal Colunas Doenças virais na tilapicultura brasileira – O que teremos pela frente?

Doenças virais na tilapicultura brasileira – O que teremos pela frente?

Doenças virais na tilapicultura brasileira – O que teremos pela frente?
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Doenças virais são responsáveis por grandes prejuízos na aquicultura ao redor do mundo, sendo também motivo de preocupação em todas as atividades de criação animal, bem como para a população humana. Nos últimos anos, têm sido descritos agentes virais na tilapicultura asiática, africana e latino-americana, sendo alguns deles associados a grandes impactos para o setor. No Brasil em específico, temos poucos registros de doenças virais. Contudo, este assunto foi e tem sido negligenciado por boa parte do setor produtivo, uma vez que ainda não conhecemos as
dimensões do impacto que determinada doença poderia causar a curto, médio e longo prazo para todo o setor.

Atualmente a tilápia do Nilo é a principal espécie utilizada para criação comercial no Brasil, sendo objeto de inúmeros projetos de expansão aquícola em diversos estados. De fato, as doenças bacterianas, principalmente àquelas causadas por Streptococcus spp., são responsáveis pelas principais perdas até então registradas. Contudo, desde o ano de 2014 têm sido relatadas doenças virais na tilapicultura brasileira, com diagnóstico de Ranavirus e Betanodavirus associados a episódios de mortalidades pontuais no nordeste do país. Observou-se nos anos seguintes que Ranavirus apresenta maior distribuição territorial, sendo ainda pouco elucidado seu potencial patogênico.

No entanto, nenhum destes agentes virais tem despertado preocupação pelo setor produtivo, mas sim o TiLV, sigla do ortomixovírus denominado Tilapia Lake Virus, também conhecido como vírus da hepatite sincicial da tilápia, que já circula em países da América Latina, África e Ásia. Até o momento, não temos registros oficiais de TiLV em território brasileiro, porém isso não significa que de fato estamos livres desta enfermidade.

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Figura 1. Histopatologia de tilápia do Nilo criada em tanques-rede no Brasil. Observa-se um quadro de hepatite dissociativa, com presença de infiltrado inflamatório perivascular, degeneração hidrópica dos hepatócitos (asterisco), hepatócitos necróticos (setas pontilhadas) e hepatócitos com dois ou vários núcleos (setas contínuas).

Há pelo menos três anos que casos de mortalidades crônicas, muitas vezes associadas com infestações mista por ectoparasitos, bem como infecções múltiplas bacterianas, ainda com lesões histopatológicas suspeitas de infecções virais, tem sido registradas em diferentes polos de tilapicultura no Brasil. Entre estes casos, alguns não apresentaram resposta ao tratamento a diferentes moléculas de antibióticos, ou a condição de morbidade reincidia em poucos dias após o término da intervenção terapêutica, uma vez que a causa primária da enfermidade não tenha sido eliminada por estas ações. Vale salientar que o uso de antibióticos é recomendado somente para controle de infecções bacterianas, não tendo efeito contra parasitos, tampouco sobre vírus. Logo, percebemos que estamos lidando com outro desafio sanitário que ainda não foi completamente diagnosticado, sendo negligenciado até então.

Doenças virais já fazem parte da realidade da tilapicultura brasileira, no entanto, ainda não sabemos se elas se consolidarão como um entrave real ao crescimento do setor. De fato, os países que possuem registro oficial de TiLV não encerraram a atividade de tilapicultura, pelo contrário, buscam soluções para minimizar o impacto pela doença e conter sua dispersão. Para tanto, o diagnóstico e o estudo sobre os agentes virais e sua patogenia é a base para elaboração destas medidas. Caso perdure a negligência destes problemas, inevitavelmente ficaremos na “lanterna” na busca destas soluções. Desta forma, os prejuízos ao setor produtivo certamente poderão ser ainda mais severos.