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¡Sí, se puede! Aquicultura com espécies alternativas em Baja Califórnia – México

¡Sí, se puede! Aquicultura com espécies alternativas em Baja Califórnia – México
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Maurício Gustavo Coelho Emerenciano
Laboratório de Nutrição de Organismos Aquáticos(LANOA)
Laboratório de Aquicultura (LAQ)
Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC)
mauricioemerenciano@hotmail.com

Artur Nishioka Rombenso
Laboratório de Nutrição e Fisiologia Digestiva de Organismos Aquáticos
Universidade Autônoma de Baa Califórnia (UABC)
artur.nishioka@uabc.edu.mx

Baja Califórnia é um estado mexicano localizado na região noroeste do país banhado pelo oceano Pacífico e o mar de Cortês. Essa região é reconhecida pelo grande potencial aquícola exemplificado por diversas iniciativas piloto-comerciais como cultivo de peixes marinhos (atum Thunnus orientalis, olhete Seriola dorsalis e lubina rayada Morone saxatilis), cultivo de moluscos (mexilhão Mytilus sp, ostra Crassostrea gigas, abalones Haliotis sp) e também cultivo de macroalgas Ulva sp. Além disso, centros de pesquisa como o Centro de Investigação Científica e de Educação Superior de Ensenada CICESE e o Centro Regional de Investigação Aquícola e Pesqueira de Ensenada (CRIP-Ensenada) e universidades como a Universidade Autônoma de Baja Califórnia (UABC) e Universidade Autônoma do México (UNAM) contribuem com a expansão da atividade através de pesquisas básicas e aplicadas e parcerias público-privadas.

Visitamos Ejido Erendira, região norte da Baja Califórnia, um parque aquícola em desenvolvimento que reúne algumas iniciativas comerciais com espécies alternativas. O intuito desse artigo é mostrar brevemente as atividades desenvolvidas e futuramente dar continuidade com mais matérias sobre o assunto.

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Fazenda de atum © Artur Rombenso e Maurício Emerenciano

Cultivo de Abalones e Ostras

A empresa Marinos Baja liderada por um casal de oceanólogos, produz três espécies de abalones (amarelo Haliotis corrugata, vermelho Haliotis refescens e azul Haliotis fulgens) e ostras (Crassostrea gigas).

A produção é focada para o mercado internacional e apenas parte é destinada para o nacional. Além disso a empresa produz também pérolas oriundas de abalones por
meio de técnica semelhante à aplicada em ostras.

O ciclo de produção dos abalones é gradual, demorando de 3 até 5 anos para despescar, porém com um elevado valor agregado. Os abalones são produzidos em laboratório, parte da engorda é feita em tanques em terra com fluxo aberto de água e parte no mar utilizando o sistema “travesseiro”. O mesmo é válido para as ostras.

A alimentação dos abalones consiste em um mix de macroalgas, porém a principal fonte de alimento é a macroalga Macrocystis pyrifera que é cultivada no mar pela própria empresa e um limitante para aumentar a produção. Iniciativas com rações tem sido realizadas, mas o custo de produção se elevou e dificultou a viabilidade dos cultivos. Atualmente a produção de abalones
está em 30 toneladas, a de ostra em 100 toneladas e 250 toneladas de macroalgas.

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Exemplar jovem de pepino do mar © Artur Rombenso e Maurício Emerenciano

Hatchery de Olhete

Ao lado da empresa de moluscos está um “hatchery” (laboratório de produção de formas jovens) de olhete (Seriola dorsalis) chamada de Ocean Baja Labs (OBL). Este laboratório pertence a empresa Baja Seas que domina o ciclo de produção da espécie.

O OBL é um laboratório de última geração totalmente equipado e automatizado. A produção de juvenis se baseia nos protocolos padrões de peixes marinhos utilizando rotíferos e artêmias nas fases iniciais e depois implementando o desmame gradual com dietas formuladas.

A larvicultura dura aproximadamente 30-40 dias com juvenis de 2g e possui uma sobrevivência média de 50%, algo bem impressionante para espécies marinhas. Uma vez atingido o peso de 2-5g os juvenis são transferidos para tanques de berçário de 70 mil litros. Depois de 30-40 dias os juvenis são transportados de barco para a engorda em tanques-rede na região sul da Baja Califórnia. O OBL está com perspectivas de exportar juvenis para Dubai.

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Tanque com olhete © Artur Rombenso e Maurício Emerenciano

Fazenda de macroalgas

Vizinha da OBL está localizada a empresa de produção de macroalgas. A mesma ainda está em fase de implantação. Porém uma planta piloto-comercial já está em andamento na Universidade
Autônoma de Baja Califórnia, projeto liderado pelo pesquisador e empreendedor Dr. José Zertuche. O pesquisador pretende aplicar todo o conhecimento e “know-how” gerado no seu laboratório na indústria.

Várias espécies de macroalgas, principalmente Ulva sp, serão cultivadas com a finalidade de produzir biomassa para consumo humano. A empresa pretende entrar no mercado americano com produtos a base de alga seca para ser incorporados na alimentação cotidiana de forma fácil e saudável. A alimentação das macroalgas consiste em nutrientes provenientes da água do mar e também de nutrientes suplementados. Nos planos, está a utilização da água descartada da empresa de moluscos para o cultivo das macroalgas e a mesma água retornar para o cultivo de moluscos de forma apropriada.

 

Considerações finais

O potencial da Península da Baja Califórnia é incontestável. No entanto, a visita nas empresas certamente fez refletirmos sobre algo bem importante: os custos de implantação dos diferentes projetos, uns utilizando técnicas ditas “high-tech” (com equipamentos sofisticados e de alto custo de aquisição) versus técnicas mais “low-tech” (com equipamentos ou técnicas mais simples e de baixo custo). Obviamente que cada caso e espécie (com suas demandas biológicas específicas) deve ser levado em consideração. No entanto, apesar de “encher os olhos” todo e qualquer projeto deve ser bem planificado e questionado principalmente quanto a um ponto crucial: o tempo de retorno do investimento. Operar e com resultados, sim! Mas a que custo? Se não for bem planejado e eficiente, o mesmo pode nunca se viabilizar e frustrar expectativas de investidores e trabalhadores/técnicos envolvidos.

As espécies já produzidas e as que apresentam demandas na região são inúmeras. Algumas parecidas com o cenário brasileiro (como as tilápias e camarões marinhos), mas outras bem diferentes como olhetes, macroalgas e abalones. A diversidade de espécies e a capacidade técnica (nas suas diferentes realidades financeiras) nos chamou a atenção. Os proprietários e investidores acreditam fielmente no potencial da atividade e investem cada vez mais focando no fortalecimento dos empreendimentos e no desenvolvimento regional. Paralelamente, programas estaduais de fomento fornecem subsídios aos projetos chegando a cifras de custear até 80% dos custos de implantação. Os produtos ganham selos locais e são vendidos por todo país e até mesmo exportados. Com um pouco de criatividade e boa vontade por parte de todas as esferas da cadeia produtiva vimos, mais do que nunca, que “¡sí, se puede!”.

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Oceanólogo José Enrique Vázquez Moreno dono da Marinos Baja apresentando sua empresa.