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O avanço da carcinicultura marinha em águas continentais

O avanço da carcinicultura marinha em águas continentais
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Fernando Malamud
Engenheiro de Aquicultura
Sócio Diretor Aquatropic Aquacultura e Meio Ambiente Ltda
aquatropic@aquatropic.com.br
www.aquatropic.com.br

 

Introdução

O avanço das tecnologias de criação de organismos aquáticos em sistemas superintensivos no Brasil e no mundo permite o surgimento de uma nova modalidade de cultivo: o cultivo de organismos aquáticos marinhos em águas continentais e distante a alguns milhares de quilômetros da costa marítima.

Piscicultores de águas interiores se tornam cada vez mais interessados nas boas margens de lucro que a carcinicultura pode oferecer.

O inverso também ocorre, muitos carcinicultores demonstram um profundo interesse pela piscicultura com o objetivo de diversificar a produção e aumentar a biosseguridade do empreendimento, aproveitando os benefícios que o cultivo de peixes pode trazer à carcinicultura.

Por motivos técnicos e econômicos, os animais escolhidos para essa “Globalização Aquícola” foram a tilápia (Oreochromis niloticus) e o camarão branco do Pacífico (Litopenaeus vannamei), sendo o primeiro um organismo naturalmente dulciaquícola e o segundo um organismo marinho. Entretanto, ambos com uma característica em comum, a possibilidade de cultivo em águas com diferentes graus de salinidade, permitindo a interconexão destes cultivos tanto em águas marinhas quanto em águas continentais.

Nos últimos anos, a produção de camarões marinhos na região litorânea do Brasil sofre quedas expressivas devido ao acometimento por patógenos como vírus e bactérias, o que diminuiu a disponibilidade do produto, ocasionando o aumento de preço em supermercados, peixarias e restaurantes. Este panorama mercadológico gerou um novo nicho de mercado em regiões distantes do litoral, principalmente em centros consumidores mais afastados dos polos produtores de camarão. A principal demanda deste mercado que está em plena expansão é por um produto “premium/gourmet” de alta qualidade, sendo fresco ou resfriado, apresentando alto valor agregado.


© Aquatropic

O cultivo do Litopenaeus vannamei no interior do Brasil

O cultivo do camarão branco do Pacífico em águas de baixíssima salinidade é uma realidade em diversas regiões do nordeste brasileiro. Estas águas dispõem de íons como sódio, cálcio, magnésio, potássio, cloretos e outros elementos, indispensáveis para que o processo osmorregulatório do camarão ocorra, garantindo a sobrevivência destes animais em águas de até 0,5 ppt. Entretanto, a maior parte das águas continentais no Brasil apresentam salinidades muito próximas a 0,0 ppt, não dispondo de concentração iônica suficiente para que o processo de osmorregulação ocorra, ocasionando mortalidades massivas em poucas horas de exposição.

Para tornar possível a produção de camarões marinhos em águas continentais, é de vital necessidade a adição de sais balanceados que criam um gradiente osmótico favorável para a sobrevivência e crescimento deste organismo. Devido ao alto custo dos sais balanceados, para ser viável economicamente este tipo de produção, o sistema necessita reaproveitar a água de cultivo durante vários ciclos, garantir uma boa sobrevivência dos organismos cultivados e permitir intensificar a produção em espaços reduzidos, justificando o investimento no sistema. Assim, as modalidades de cultivo que mais atenderam essas características foram os sistemas de Bioflocos (BFT) e Sistema de Recirculação de Água (RAS).


© Aquatropic

Bioflocos são sistemas mais simples em termos de equipamentos e assim de menor investimento em relação aos RAS, entretanto são mais complexos de serem operados, promovendo grande quantidade de sólidos que devem ser monitorados e retirados do cultivo quando ultrapassam limites pré-estabelecidos. Já os RAS utilizam unidades filtradoras anexas ao cultivo que simplificam o manejo, entretanto necessitam de maior investimento e geram um custo adicional de manutenção do sistema.

São inúmeras as dúvidas que pairam sobre produtores na hora de escolherem qual sistema pretendem implantar, o que precisa ficar claro é que não há um sistema melhor que o outro, são estratégias de cultivo diferentes que podem ser utilizadas de acordo com cada necessidade. Existe uma sinergia entre estas duas modalidades de cultivo que pode levar a uma fusão e associação entre ambos os sistemas, tornando-os mais produtivos e eficientes.

 

Desafios nos cultivos em águas interiores

Quando se trabalha com cultivos superintensivos, observam-se picos de compostos nitrogenados muito acima de cultivos convencionais extensivos ou semi-intensivos, oriundos das altas taxas de alimentação e metabólitos dos organismos cultivados. Por esse motivo, um dos grandes desafios da interiorização do cultivo do camarão branco do Pacífico foi adequar o sistema para que essas concentrações de nitrogenados não ocasionassem mortalidades expressivas durante o cultivo, e para isso, o caminho encontrado foi aumentar a salinidade (ideal acima de 8,0 ppt) dos sistemas a fim de reduzir a toxicidade dos compostos nitrogenados dando uma maior segurança ao cultivo como um todo.

Considerando o alto valor dos sais no mercado brasileiro, a empresa Aquatropic vem desenvolvendo nos últimos anos diversos trabalhos com a elaboração de sais iônicos específicos para cada empreendimento, sendo possível reduzir o custo e aumentar e eficiência do balanço iônico conforme a realidade de cada região.

Um dos principais gargalos encontrados atualmente é a falta de mão de obra capacitada para operação deste sistema. Por este motivo, a empresa Aquatropic realiza diversos cursos e capacitações no Brasil com o objetivo de suprir essa demanda. Outros gargalos como o alto custo de materiais e equipamentos como geomembrana, estufas, aeradores, bombas de água de alto desempenho entre outros acabam encarecendo o investimento nestes sistemas no Brasil. Por outro lado, surgem empresas desenvolvedoras de tecnologia com objetivos comerciais que poderão suprir as adversidades que hoje encontramos.

Estados como Goiás, Distrito Federal, Minas Gerais, São Paulo, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Paraná e possivelmente outros, já possuem produtores de camarões marinhos em águas continentais salinizadas artificialmente. Estes cultivos são desenvolvidos em tanques suspensos ou escavados revestidos com materiais impermeabilizantes e boa parte deles utilizam estufas para controle térmico. O isolamento destes cultivos de regiões litorâneas disseminadoras de patógenos tais como, a Síndrome da Mancha Branca (WSS), Mionecrose Infecciosa (IMN), Necrose Infecciosa Hipodermal e Hematopoiética (IHHN) e outros, tem sido um grande trunfo para alavancar a produção de camarões marinhos em águas interiores.

A carcinicultura marinha em águas continentais demanda a necessidade de utilização de sistemas fechados (BFT e RAS) o que acaba reduzindo significativamente a probabilidade de contaminação dos cultivos por doenças. Todavia, sistemas fechados envolvem maior controle técnico, o que força produtores e funcionários a se qualificarem para operar o sistema. Desta forma, a realização de controles constantes de qualidade de água, utilização de programas nutricionais de alto rendimento e protocolos de biossegurança, tornam-se hábitos comuns destes aquicultores. A possibilidade de baixar custos através da utilização de ferramentas e equipamentos que automatizam o processo produtivo desperta nestes empreendedores um grande interesse por tecnologias. Produções com um baixo grau de tecnificação e controle produtivo, dificilmente sobreviverão produzindo camarões marinhos em águas continentais.

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© Aquatropic

Conclusão

Existe um longo caminho a ser trilhado para consolidação da carcinicultura em águas continentais. O que percebemos é que a cada dia que passa, as tecnologias ficam mais acessíveis, os sistemas se tornam mais eficientes e as dificuldades diminuem. Enquanto isso, aqui em Goiás, consumidores aguardam ansiosamente para comer um “camarão do cerrado com pequi”.