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Modelo misto de alimentação

Modelo misto de alimentação
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Esse é meu 10˚ artigo, referente à coluna de Nutrição, publicado nas mídias da Aquaculture Brasil (site e revista). Nos artigos anteriores mencionei conceitos e pontos importantes em relação à qualidade nutricional e método de fabricação dos alimentos aquícolas. Hoje vou abordar um tema relacionado à alimentação dos organismos aquáticos: o modelo misto de alimentação.

Esse modelo consiste no aprimoramento do processo de alimentação, buscando maximizar os lucros de produção através do aumento da eficiência alimentar, redução da perda de alimento e otimização do custo operacional referente à ração. Basicamente, existem duas formas de aplicação. A primeira consiste na utilização intercalada de duas rações (A e B), uma com níveis mais altos de proteína (A = rica em proteína) e outra com níveis mais baixos de proteína (B = pobre em proteína). A segunda forma consiste em variar a taxa de arraçoamento (quantidade de ração ofertada) diária entre uma alimentação otimizada (O = taxa de arraçoamento otimizada) e outra mais reduzida (B = taxa de arraçoamento baixa).

Esse modelo baseia-se no conceito de que os organismos aquáticos não têm as mesmas exigências e demandas nutricionais todos os dias, ou seja, a exigência nutricional não é linear, pode variar.  O modelo busca entender melhor esse contexto, otimizando a produção através do fornecimento adequado de ração conforme as exigências nutricionais, evitando a perda de nutrientes e gastos desnecessários. Um dos precursores desse conceito é o Dr. Sena S. De Silva, que possui várias publicações e livros a respeito. Esse modelo é muito popular na Ásia, no cultivo de carpas e tilápias, e atualmente desperta a curiosidade de muitos pesquisadores.

Agora vou exemplificar como o modelo misto de alimentação pode ser utilizado e testado. O ideal é intercalar dietas ricas e pobres em proteína e/ou taxas de arraçoamento otimizadas e mais reduzidas até chegar a uma proporção adequada. Assim por exemplo, foram testados em juvenis de tilápia (40g), criados em viveiros em um sistema semi-intensivo, nove tratamentos variando a alimentação diária com duas dietas (A = 33% de proteína bruta e B = 22%  de proteína bruta): A, B, 1A/1B, 2A/2B, 3A/1B, 1A/3B, 3A/2B, 2A/3B e 3A/3B. O tratamento A significa alimentação apenas com a dieta A enquanto que o tratamento 1A/1B significa alimentar um dia com a dieta A e um dia com a dieta B, e assim por diante.

Resumindo os principais resultados (Figura 1), não observou-se diferença significativa em ganho em peso, porém, em termos de conversão alimentar aparente (CAA), peixes alimentados apenas com a dieta B (menor conteúdo proteico) apresentaram um valor de CAA mais elevado em relação aos demais tratamentos. Dessa forma, pode-se concluir que o modelo misto de alimentação em função de dietas com diferentes níveis de proteína (A e B) tem potencial, porém sua utilização dependerá da logística requerida para esse tipo de alimentação, dos custos das dietas A e B, entre outros fatores individuais de cada produtor.

Espero ter apresentado algo novo e útil, e também ter motivado estudantes e pesquisadores a utilizar esse conceito em seus projetos. Na próxima coluna continuarei nesse tema, abordando o modelo misto de alimentação em função da taxa de arraçoamento.

Figura 1. Ganho em peso e conversão alimentar aparente de juvenis de tilápia (40g) criados em viveiros e alimentados com dietas A (33% proteína bruta) e B (22% proteína bruta) a 2,3% da biomassa utilizando o modelo misto de alimentação (Patel e Yakupitiyage 2003).