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Carcinicultura indoor – um novo paradigma

Carcinicultura indoor – um novo paradigma
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André Moreau Alano
MCR Aquacultura
mcraquacultura.com.br
andre@mcraquacultura.com.br

Um novo paradigma está surgindo no cenário da carcinicultura mundial. Lugares onde outrora era inimaginável cultivar camarão, como na Letônia, país báltico onde as temperaturas chegam a 30 graus Celsius negativos, hoje surpreendem com cultivos sustentáveis e de alta produtividade. “Indoor Shrimp Production System – ISPS” é a nomenclatura que vem sendo utilizada para classificar este novo sistema de cultivo. Em português significa algo como “Cultivo de Camarão em Ambientes Fechados”. Para facilitar a incorporação do conceito aqui no Brasil, será adotado o termo “Carcinicultura Indoor – CI”. A ideia de que é inescusável dispor de grandes áreas e altas temperaturas para praticar a carcinicultura pode se tornar coisa do passado. Em 2017 já observamos a ocorrência, em diversos (e adversos) locais do mundo, de cultivos superintensivos em ambientes fechados, desde países mais ricos como o Japão, Espanha e Estados Unidos até nações de menor expressão econômica no contexto mundial como África do Sul, México e Mongólia.

 

Perspectivas para o Brasil

No Brasil esses cultivos vêm surgindo discretamente. Ainda existem desafios a serem superados para que esta prática se torne habitual por aqui. O descaso do governo com a real potencialidade da aquicultura nacional, a carência de investimentos eficientes em ciência e tecnologia e a resistência por parte dos produtores em adotar métodos inovadores são algumas das barreiras para o processo de intensificação sustentável dos sistemas de carcinicultura no país.

 

Como cultivar?

A ciência por trás do atual sucesso da Carcinicultura Indoor se dá principalmente devido aos avanços em três linhas de pesquisa: Sistema de Recirculação de Água (RAS), Sistema de Cultivo com Bioflocos ou Mixotrófico (BFT) e Cultivo Livre de Patógenos Específicos (SPF). A conjunção prática desses novos saberes culmina em uma nova forma de pensar a carcinicultura. É importante salientar que num sistema de produção de camarão pode haver o emprego de duas ou três das técnicas descritas acima. Um cultivo BFT pode simultaneamente recircular a água e usar linhagens SPF ou não, ou seja, o uso de uma metodologia não exclui a aplicação simultânea de outra(s).

Vantagens da carcinicultura indoor

A Carcinicultura Indoor maximiza a produção num contexto limitado de terra e água; possibilita o completo controle das variáveis físicas, químicas e biológicas do ambiente de cultivo; independe das condições climáticas naturais da região; possui relativa facilidade na obtenção de licenças ambientais, pois o impacto ambiental é baixo ou nulo; oportuniza o cultivo integrado com plantas halófitas (Ex.: Salicornia sp. ou Sarcocornia sp., ambas tolerantes à água salgada, e uma vez processadas podem ser consideradas como o “sal do futuro”); viabiliza o cultivo em regiões afastadas da costa, podendo ser implantada próxima a grandes mercados consumidores. Em suma, a principal vantagem é o fato de não ser necessário muita água nem grandes áreas para produzir em uma escala comercial considerável. As maiores dificuldades desse sistema são a necessidade de trabalhadores capacitados e treinados para administrar este tipo de cultivo e o custo relativamente alto de implantação.

 

Considerações Finais

Atualmente cerca de 90% do camarão consumido no Japão é importado. Especialistas apontam que, num futuro próximo, todo o camarão consumido no país poderá ser advindo da CI. Devemos começar também a repensar a carcinicultura no nosso país. A carcinicultura indoor representa uma ameaça ao cultivo convencional? Ambos existirão em consonância? Ainda não temos essas respostas, no entanto podemos presumir que haverá uma reestruturação da indústria e do mercado do camarão no Brasil e no mundo decorrente da (r)evolução tecnológica desse setor. Um novo paradigma está surgindo no cenário da carcinicultura mundial e ainda nem todos o perceberam.

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