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Construção de viveiros para piscicultura comercial

Construção de viveiros para piscicultura comercial
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Parte I – Demanda hídrica de um projeto

Prof. Dr. Carlos Eduardo Zacarkim
Programa de Pós-graduação em Aquicultura e Desenvolvimento Sustentável
Coordenador do Curso de Engenharia de Aquicultura
Universidade Federal do Paraná – UFPR/Setor Palotina
zacarkim@ufpr.br

Vamos do princípio. Da mesma forma que na avicultura um galinheiro em nada se parece com um aviário, desconsiderando-se o fato de ambos possuírem galinhas, a mesma equivalência pode ser feita quando tratamos da piscicultura comercial intensiva. Açudes, poças d´água ou tanques construídos de qualquer forma, não são unidades de cultivo (viveiros) de piscicultura comercial excetuando-se, claro, a água e os peixes. Neste sentido, viveiros destinados ao cultivo intensivo de peixes devem atender as demandas específicas relativas ao tamanho, controle, prevenção de doenças, manejo e padronização necessários a obtenção da uniformidade dos lotes de peixes demandados pelas unidades de processamento de pescado (frigoríficos de pescado).

Na piscicultura comercial intensiva (industrial), assim como na avicultura, os peixes devem ter uniformidade de peso, tamanho, sanidade e tempo de cultivo, independente da variedade do peixe ou espécie cultivada, que pode mudar de acordo com cada região. A ausência de tais critérios, não apenas irá prejudicar o planejamento na unidade de processamento, mas predominantemente, implicará em prejuízo ao produtor, uma vez que peixes fora de padronização irão render entre 20 a 50% a menos na venda do pescado ao frigorífico.

Um exemplo disso é a relação comercial entre frigoríficos de pescado e produtores na região oeste do estado do Paraná, no cultivo e comercialização de tilápias. Para o comércio de um lote qualquer de peixes com uniformidade de tamanho, peso e sanidade, variando entre 800g a 900g, em valores comerciais de hoje, o entreposto de pescado pagará de R$ 4,10 a R$ 4,60 kg/ peixe, dependendo do frigorífico e a distância ao entreposto. Para o mesmo lote, caso este estivesse fora de um padrão aceitável demandado pelos abatedouros, com peixes variando entre 500g a 1kg, por exemplo, o lote seria avaliado facilmente entre os R$3,00 a R$3,60 kg/peixe, acarretando significativo prejuízo ao produtor.

Parece bastante óbvio que a falta de uniformidade de um lote de peixes pode ter muitas origens, como alevinos defeituosos, linhagens ruins, peixes mal revertidos, incidência de doenças, falta de assistência técnica entre outros, mas excluídas situações adversas, de maneira geral a produção irá depender predominantemente do manejo adotado ao longo do cultivo. Neste sentido, o presente trabalho irá abordar alguns aspectos considerados relevantes a respeito da construção de viveiros para piscicultura comercial intensiva, no tocante ao facilitar o manejo da produção, reduzir custos de produção e na construção de empreendimentos para aperfeiçoar os ganhos e processos adotados. Entre os aspectos considerados relevantes, estão a demanda hídrica de projetos e os aspectos construtivos de viveiros comerciais, tais como layout, tamanho, forma, solo e os dispositivos de controle de vazão, manejo e despesca.

 

Demanda Hídrica do Projeto

A demanda hídrica de um empreendimento aquícola será dada pela quantidade de água necessária para o funcionamento pleno da unidade produtiva, independente do porte ou finalidade. Parece evidente que para um projeto de piscicultura comercial se necessita de água, mas o que se observa em muitos casos, são projetos mal executados, onde este aspecto elementar e fundamental é desconsiderado na fase de planejamento do empreendimento.

Em piscicultura comercial não obstante as perdas de água por infiltração e evaporação da água, devem ser considerados a renovação de água diária no sistema, além de uma possível demanda pontual por conta do manejo adotado ao longo do cultivo, como por exemplo, redistribuição dos peixes nos viveiros para padronizar os lotes (repiques), operações de despesca, controle de algas etc.

Neste aspecto, o primeiro ponto a ser avaliado pelo profissional é o tipo de solo da região onde será construído o empreendimento aquícola. Por definição, solos são conjunto de partículas sólidas (minerais e orgânicas) e de espaços ou poros ocupados pelo ar e pela água, onde a combinação de suas partículas e da proporção em que estas se encontram no material irá dar ao profissional a classificação do solo existente no local, bem como lhe fornecer informações importantes a respeito da permeabilidade de água, granulometria, índice de vazios, compactação, estabilidade, plasticidade entre outros fatores caracterizados na mecânica dos solos. Tais informações, influenciarão não somente na demanda por água no projeto, como também nos processos relacionados a construção propriamente dita, como movimentação de terra, empolamento, compactação, inclinação dos taludes, etc.

Desta forma, especificamente para demanda hídrica, um dos aspectos mais relevantes será a permeabilidade de água no solo, caracterizada pela propriedade que o solo apresenta de permitir o escoamento da água através dele, avaliado pelo coeficiente de permeabilidade (kp) e seu gradiente hidráulico, conforme a Lei de Darcy (1856).

 

Coeficiente de Permeabilidade

Quanto maior a granulometria do solo, maior também será o índice de vazios, ou seja, espaços vazios entre partículas e, consequentemente, maior a possibilidade de a água transitar por estes espaços acarretando no aumento do fluxo de água deste solo, caracterizado pelo coeficiente de permeabilidade ou percolação (kp), conforme expresso na Figura 1.


Figura 1. Coeficiente de permeabilidade (kp), de acordo com a granulometria do solo. Fonte: Caputo, 2015.

Desta forma, a permeabilidade será caracterizada pela quantidade máxima de água que pode infiltrar no solo, em um dado intervalo de tempo, sendo expressa geralmente em mm/s ou cm/s, também nominada de Velocidade Básica de Infiltração (VIB), dependendo do método avaliado. Esta permeabilidade poderá ser avaliada pelo profissional por vários métodos, adotados conforme a disponibilidade e acesso a cada um deles. Entre os métodos mais adotados estão o da granulometria do solo (Fórmula de Hazen), do permeâmetro (Lei de Darcy) ou no próprio campo, por técnicas mais simples do tubo aberto e trincheira permeável.

 

Evapotranspiração

Outro aspecto pertinente e que deve ser levado em conta no planejamento da demanda hídrica de um projeto é a evaporação de água diária ou evapotranspiração, dada na forma de (mm/dia), que irá variar de acordo com os meses do ano, temperatura, umidade do ar ou ação dos ventos, sendo obtidas em estações meteorológicas ou institutos de meteorologia de cada estado (Figura 2).


Figura 2. Evapotranspiração no Estado do Paraná, em dezembro de 2016. Fonte: IAPar, 2017.

Desta forma, o profissional poderá facilmente avaliar parte da demanda hídrica de um projeto, considerando as perdas de água por evaporação e infiltração por unidade de área, normatizando as unidades (deixando-as iguais), e multiplicando pela área produtiva conforme exemplo abaixo:

Exemplo prático:
Suponhamos que um produtor deseja construir uma unidade produtiva de pescado no oeste do estado do Paraná, com 1 hectare de lâmina d´água, onde o solo foi caracterizado como franco-argilo arenoso no teste de granulometria, ou seja, possui níveis intermediários de areia, silte e argila e a permeabilidade do solo foi avaliada pelo teste do permeâmetro em 0,0002cm/s (0,002mm/s ou 7,2mm/h). Além disso, na avaliação da evaporação da região para mês de dezembro (maior incidência de luz solar), foi estimada em 4,5mm/dia (0,1875mm/h), expresso na Figura 2.

Caso o corpo hídrico não atenda esta demanda, o engenheiro responsável deverá ou reduzir o porte do empreendimento ou entrar com medidas paliativas para reduzir a perda de água por infiltração ou reposição de água, alterando também o manejo adotado. A Tabela 1 sintetiza alguns cálculos considerando as perdas de água por infiltração e evaporação, expressas em m3/h por hectare de lâmina d´água.

Tabela 1. Demanda hídrica de água considerando perdas por infiltração e evaporação de água por hectare de lâmina d´água (m3/h).

Nos próximos artigos da série, o autor abordará as etapas seguintes do processo de construção de viveiros para o cultivo comercial de peixes, com destaque para a piscicultura de água doce. O conjunto de artigos sintetizará, nas páginas da Aquaculture Brasil, as experiências adquiridas pela região Oeste do Estado do Paraná, um dos principais polos da piscicultura em viveiros escavados no País.

Assuntos dos próximos artigos:

  • Escolha do local;
  • Tamanho e formato;
  • Profundidade;
  • Demarcação;
  • Movimentação de terra e construção;
  • Dispositivos hidráulicos;
  • Despesca.

Continue acompanhando a Revista Aquaculture Brasil e não perca esta série inédita de artigos na área de construção de viveiros para piscicultura.

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