AgroBR Forte

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O Agronegócio brasileiro iniciou o ano de 2017 apanhando. Primeiro foi o samba enredo da escola de samba do grupo especial do Rio de Janeiro. E depois a operação da Polícia Federal sobre alguns frigoríficos do Brasil. No primeiro caso, desnecessário e total desconhecimento por parte dos autores do samba enredo. No segundo, necessário e louvável a iniciativa de usar inteligência investigativa para apurar possíveis fraudes em alimentos. Porém, não da forma como foi divulgada, especialmente ao considerarmos que a amostragem investigada não é representativa de toda a cadeia produtiva da carne. Bem como não terem apresentado um laudo conclusivo onde realmente os consumidores estivessem sendo lesados.

Mas o que ambos os fatos têm em comum? Possuem em comum o retrato fiel da opinião distorcida que os grandes centros urbanos tem sobre o agronegócio brasileiro. Mas e qual seria esta opinião? Em resumo: produtor rural é sinônimo de devastador ambiental, latifundiário a custas de grilagem de terras, utiliza mão de obra escrava e infantil, produz alimentos por meio de fraudes e uso massivo de agrotóxicos e, claro, ganha dinheiro fácil. Você, leitor da Aquaculture Brasil, pode estar achando um absurdo imaginar que parte considerável da sociedade pensa isto sobre o agronegócio. Mas lembre-se que: se você esta lendo a AB, é porque não faz parte desta sociedade a qual me refiro.

Justo o segmento mais importante da economia brasileira é o que mais leva cacetada. Talvez possa ser uma espécie de tendência natural do velho ditado “Pé que dá fruta é o que mais leva pedrada” ou então algo do tipo “fogo amigo” onde já que não podemos ser tão competitivos quanto eles, então vamos derrubá-los. Prefiro acreditar na primeira situação, onde para se manter no topo realmente é necessário enfrentar e vencer grandes desafios. Porque se estão tentando nos enfraquecer, escolheram o caminho errado, pois, certamente sairemos extremamente fortalecidos desta.

A curto prazo, os produtos cárneos afetados amargarão prejuízos. Principalmente o setor que está na base da cadeia produtiva, ou seja, os produtores de aves, suínos e bovinos. Mas a médio prazo, a tendência natural é de retomada de crescimento. Mesmo que o setor de pescado não tenha sido alvo destes recentes ocorridos, não há dúvidas que o mesmo também perde. Não faz qualquer sentido vibrar com possibilidades de ganhar mercado a custas de perdas de outros setores. O que faz sentido é enfrentar as dificuldades e revezes do dia-a-dia, vencê-los e seguir no trilho cada vez mais forte.

E as movimentações no campo da aquicultura já dão sinais de que 2017 será um ano de mudanças positivas. Mas como assim, se nem mesmo tem-se observado notícias otimistas relacionadas ao milagre da multiplicação dos peixes? Ótimo, pois é exatamente disso que precisamos: menos conversa e mais ação! Parafraseando meu amigo André Camargo: “Fala de mais quem não tem nada a dizer”. Não precisamos de qualquer “Pirotecnia” para sermos grandes e fortes na produção de pescado. Mais do que ninguém, o aquicultor sabe do potencial que tem e não precisamos de ninguém para alardear isto.

Mas Fábio, de onde então vem tanto otimismo para afirmar que 2017 será um ano de grande crescimento para a aquicultura brasileira? Bom, na história recente da atividade, observa-se uma produção aquícola brasileira sustentada pela tilapicultura e carcinicultura marinha. No caso da tilápia, entre problemas com crise hídrica no sudeste (2013-2014) e, mais recentemente, crise hídrica no nordeste (2013-2016), ainda foi possível observar algum crescimento da atividade. Os cultivos intensivos de tilápias em tanques escavados no oeste do Paraná foram determinantes para manter este crescimento. Já no caso do camarão marinho, o vírus da mancha branca manifestou-se com força, implicando em mortandades e, consequentemente, queda expressiva dos volumes produzidos.

Após a tempestade, sempre vem a bonança.

No âmbito da tilapicultura, os níveis dos reservatórios na região Sudeste voltaram a normalidade e novos grupos de investimento se formaram e, já no ano de 2016, houve aumento considerável da produção. No Oeste do Paraná, o sistema de produção intensiva, amparado e incentivado pelo cooperativismo, ganha cada vez mais força. A recente inclusão do camarão de água doce gigante-da-Malásia junto à produção de tilápias tem proporcionado renda extra aos piscicultores. No Nordeste, a boa quantidade de chuvas observada no inicio de 2017 da sinais de recuperação dos grandes reservatórios, Orós e Castanhão principalmente.

A carcinicultura marinha vem encontrando soluções que conciliam convivência com o vírus da mancha branca e produção intensiva. O sistema de produção em estufas, onde os viveiros são revestidos com geomembrana e uso intensivo de aeradores, requer investimentos consideráveis. Apesar disso, o retorno tem sido compensador e este novo modelo de produção tem se mostrado uma das formas mais sustentáveis de se produzir alimentos. Primeiro é porque não há descarte de água para o ambiente. Já o segundo está relacionado à capacidade de produzir grande quantidade de proteína animal em pequenas áreas de produção e em regiões onde, seja pelo excesso de sal no solo ou na água não é possível a produção de nenhum outro alimento, seja animal terrestre ou vegetal.

As expectativas em relação à retomada de crescimento da carcinicultura marinha são grandes e, para viabilizar as produções no sistema intensivo, é fundamental que os atuais preços do camarão sejam mantidos. Para não colocar em risco os grandes investimentos que estão sendo feitos por empresários brasileiros, é fundamental manter a proibição da importação de camarão, bem como alcançar maior efetividade na fiscalização desta medida.

Voltando a piscicultura, deve-se ressaltar o vigoroso crescimento da produção de peixes nativos (pintados, tambaqui e pacu, principalmente) no Norte e Centro Oeste do Brasil. Sem sombra de dúvidas, este é o setor que mais cresceu nos últimos dois anos. Destaque para o estado de Rondônia, onde a produção de tambaqui aumentou e continua crescendo vigorosamente. Aliás, não será novidade alguma se nos próximos levantamentos estatísticos a produção de peixes nativos já responder por mais de 50% da produção, considerando que atualmente o que predomina é a produção de tilápias.

Em resumo, mais do que nunca o setor aquícola está preparado para um novo momento. Sem pirotecnia com notícias infladas e sim organizado em sua base produtiva. Além de estar fortalecido pelas associações e com questões climáticas normalizadas. Independente dos rumos da economia brasileira, o AquaNegócio atravessara um ano singular em sua recente história. Mas se o fator econômico como um todo voltar à normalidade (que o grande desejo de todos), o setor aquícola agradece.