Principal Entrevistas Tzachi Matzliach Samocha – De Israel para o Mundo
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Tzachi Matzliach Samocha – De Israel para o Mundo

Tzachi Matzliach Samocha – De Israel para o Mundo
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Visitando o Brasil a convite da organização do I Workshop Sul Brasileiro de Bioflocos, realizado pelo Departamento de Aquicultura da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), o israelense Tzachi Matzliach Samocha, considerado um dos precursores e maiores especialistas mundiais na tecnologia de bioflocos, ministrou palestras em SC e também concedeu uma entrevista exclusiva para a AQUACULTURE BRASIL. Samocha é professor na Texas A&M AgriLife Research Mariculture Laboratory at Flour Bluff, Corpus Christi, Texas (EUA).

AQUACULTURE BRASIL: Como foram seus primeiros anos de trabalho em Israel?

Samocha: Comecei minhas pesquisas com carcinicultura em 1974 na Universidade de Tel Aviv. Em 1980 mudei-me para uma cidade na parte sul de Israel, onde trabalhei 8 anos como chefe do programa do centro de pesquisa nacional de camarão de marinho. Neste centro realizamos inúmeros trabalhos acerca dos diferentes aspectos relacionados ao cultivo do camarão marinho, com ênfase nos camarões do gênero Penaeus. Trabalhamos com Penaeus japonicus, Penaeus semisulcatus e Penaeus vannamei, desenvolvendo estudos sobre as necessidades nutricionais, indução à maturação e diferentes aspectos relacionados ao cultivo destas espécies.

Tzachi Matzliach Samocha - De Israel para o Mundo, Entrevistas Aquaculture Brasil (01)

Dr. Tzachi Matzliach Samocha.

AQUACULTURE BRASIL: Após oito anos trabalhando em Israel, você se mudou para os Estados Unidos. Inicialmente para um sabático, entre 1988 e 1989, em Corpus Christi. O que o motivou a permanecer em definitivo naquele país?

Samocha: Quando me mudei para os EUA tinha o objetivo de continuar minhas pesquisas iniciadas durante os primeiros anos em Israel e também ministrar aulas na Universidade Texas A&M Corpus Christi. Quanto às pesquisas, estava focado principalmente no cultivo de camarões na fase de berçário, desde a formulação de dietas para pós-larvas até o desenvolvimento de sistemas de produção. Logo depois começamos a estudar aspectos relacionados à maturação, em parte devido à evolução das dietas destes animais. Também começamos a estudar sobre a engorda em viveiros intensivos, sem troca de água durante o ciclo de cultivo. A ideia era desenvolver um sistema de bioflocos onde uma comunidade biológica nos ajudaria a gerenciar a qualidade de água e com isso beneficiar os camarões sem a necessidade de troca de água. Com sucesso chegamos a essa comunidade biológica, capaz de converter os metabólitos tóxicos para o camarão em metabólitos menos tóxicos, permitindo a produção de uma alta biomassa de mais de 9 quilos de camarão por metro cúbico sem troca de água. Esta comunidade biológica (bactérias), além de melhorar a manutenção da qualidade de água, pode servir como complemento alimentar para os camarões, devido ao seu elevado valor nutricional.

AQUACULTURE BRASIL: Recentemente, um vídeo divulgado nas redes sociais trouxe um questionamento sobre o porquê os EUA exploram tão pouco o potencial da sua aquicultura. Para um país com tanta tecnologia, poder aquisitivo, clima, terra e água em abundância, os norte-americanos produzem muito pouco (comparado, principalmente, com alguns países asiáticos). Esta questão é estratégica do país, ou seja, os Estados Unidos preferem importar pescado a um custo mais baixo do que produzir? Você acredita que este panorama pode mudar, ou seja, poderemos ver, no futuro, os Estados Unidos entre os principais produtores aquícolas mundiais?

Samocha: Para a maior parte dos EUA as condições são mais propícias para a pesquisa e desenvolvimento de tecnologia do que para o cultivo em si. Os EUA não são propícios para esse tipo de atividade por conta do alto custo de produção, por exemplo, relacionado ao custo de mão-de-obra.

Parece muito mais fácil desenvolver a tecnologia e exportá-la ao invés de produzir o camarão em solo norte-americano. Se cultivarmos o camarão nos EUA o custo de produção seria maior comparando-se com outros países.

Entre outras razões, além da mão de obra, eu destacaria ainda questões ambientais, entre outras. Portanto, é preferível desenvolver o cultivo na América Central, América do Sul ou Sul da Ásia, do que nos EUA.

AQUACULTURE BRASIL: Você acredita que no futuro essa situação possa mudar nos EUA?

Samocha: Eu realmente não consigo ver o desenvolvimento desta atividade em grande escala nos EUA, comparando-se com outros países. O fator climático é muito limitante para nós. Precisamos manter a temperatura alta no sistema de produção, e isso é muito custoso. Nos EUA podemos ver claramente o desenvolvimento de indústrias de produção de camarão intensivo, mas em pequena escala, onde é possível controlar os parâmetros, como oxigênio dissolvido da água e, principalmente, a temperatura. Mesmo assim é difícil ver esse tipo de indústria com um crescimento significativo. Eles vão continuar desenvolvendo e produzindo camarões de alta qualidade para um nicho específico de mercado. Basicamente não podem competir com o camarão importado. Esta indústria específica dos EUA produz camarão fresco e vivo, nunca congelado, e com isso você tem um preço mais elevado em comparação com o camarão importado.

AQUACULTURE BRASIL: Como a tecnologia de bioflocos surgiu em sua carreira científica/profissional?

Samocha: Basicamente surgiu ao longo dos anos através da necessidade de se desenvolver práticas mais sustentáveis para o cultivo do camarão. Iniciei com pesquisas em conjunto com a iniciativa privada e mais tarde nosso centro de pesquisa da Texas A&M viu a possibilidade de cultivar camarões com troca zero ou mínima de água e demos foco neste tipo de pesquisa.

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Dr. Tzachi Samocha e Dr. Maurício Emerenciano com equipe Aquaculture.

AQUACULTURE BRASIL: No futuro, os bioflocos serão o principal sistema de produção de camarões marinhos? Se sim, você acredita que esta inversão ocorrerá daqui a quantos anos?

Samocha: Acredito que a tecnologia de bioflocos vai continuar a evoluir, mas em sistemas indoor, controlados, onde por exemplo se pode cultivar 9 quilos de camarão por metro cúbico, enquanto que em sistemas convencionais são produzidos de 2 a 3 quilos de camarão por metro quadrado. E tudo isso sem a troca de água, o que dá maior biosseguridade e controle sobre o sistema, diminuindo assim a incidência de doenças. E tudo isso sem a troca de água, o que dá maior biosseguridade e controle sobre o sistema, diminuindo assim a incidência de doenças.

AQUACULTURE BRASIL: Várias espécies de peixes têm demonstrado potencial para o cultivo em bioflocos. Os peixes, de fato, poderão no futuro serem igualmente cultivados em bioflocos, assim como os camarões marinhos?

Samocha: Sim, alguns peixes têm demonstrado um potencial interessante para o cultivo em bioflocos, como a tilápia, por exemplo. Vários estudos hoje já comprovam o sucesso desta espécie nesse tipo de sistema. Para outros peixes esse sistema ainda não é o mais adequado. Sei que aqui no Brasil há muitos trabalhos realizados por pesquisadores em diferentes estados, avaliando-se diferentes espécies de peixes nativos de sua região e suas respectivas capacidades de desempenho no sistema de bioflocos. Os resultados me parecem muito promissores, então a resposta é sempre tentar introduzir novas espécies e avaliar sua capacidade de crescer de maneira sustentável, com limitada ou nenhuma troca de água.

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AQUACULTURE BRASIL: Qual a sua visão a respeito da aquicultura brasileira? O Brasil será um gigante na aquicultura mundial? O que nos falta?

Samocha: Eu acredito que a aquicultura brasileira tem um grande potencial, desde que as universidades trabalhem em conjunto com o setor privado. O Brasil tem tudo para ser um dos maiores produtores de pescado, uma vez que tem clima favorável, disponibilidade de água e um bom número de pessoas para trabalhar. Vejo que a parceria com as indústrias pode trazer um maior desenvolvimento de tecnologia, que é o que mais precisamos, especialmente devido a difícil situação na qual os brasileiros estão enfrentando, com o vírus da mancha branca em cultivos de camarão. Novamente, esse tipo de pesquisa e cooperação com as indústrias penso ser essencial para minimizar os efeitos causados por doenças, e aí sim, tornar o Brasil um país com grande potencial em termos de uma aquicultura sustentável.

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Experiências profissionais do Dr. Tzachi Samocha
Dr. Tzachi Samocha, se aposentou recentemente do Texas A&M AgriLife Research Mariculture Laboratory, em Corpus Christi, no Texas. Ao logo de sua carreira trabalhou com diversas linhas de pesquisa em diferentes laboratórios.

2002-2016: Professor na Texas A&M AgriLife Research Mariculture Laboratory em Flour Bluff, Corpus Christi, Texas. Suas atuações incluíam: Realização de pesquisas com camarão cultivados em raceways e viveiros, desenvolvendo novos conceitos em sistemas intensivos de berçários e engorda. Trabalhos de extensão, com transferência de tecnologia de setor aquícola para produtores comerciais e empresas. Sintetização de pesquisas e resultados acadêmicos para publicação e preparação de propostas de subsídio visando o financiamento dos programas de pesquisa e pós-graduação.
2002-2006: Professor na Texas A & M Universidade-Corpus Christi (TAMU-CC), Corpus Christi, lecionando nos cursos de pós-graduação e orientando alunos de pós-graduação.
1992-2002: Professor associado da Texas Agricultural Experiment Station (TAES), Shrimp Mariculture Research Facility (SMRF), Corpus Christi, Texas and TAMU-CC.
1989-1992: Pesquisador visitante, TAES-SMRF, Corpus Christi, Texas.
1988-1989: Sabático, TAES-SMRF, Corpus Christi, Texas.
1980-1988: Cientista Sênior, Chefe da unidade de pesquisa com camarões do Oceanographic and Limnological Research (IOLR) – National Center for Mariculture (NCM), em Israel. Responsável pela realização de pesquisas com maturação induzida, reprodução, larvicultura, berçário e engorda de camarão marinho. Trabalhou com toxicidade de metabólitos, nutrição e doenças. Realizou pesquisas visando o desenvolvimento de uma indústria comercial de cultivo de camarão em Israel. Buscou integrar a academia com os setores privados que trabalhavam com cultivo de camarão. Participou de programas de educação de estudantes de pós-graduação da Universidade de Tel Aviv em Israel.
1988-presente: Consultoria ao setor privado: assistência técnica, avaliação de locais, elaboração de projetos conceituais e treinamento de pessoal para realização de maturação induzida, cultivo de larvas de camarão e de microalgas, sistemas de viveiros intensivos e de engorda para camarão peneídeo.

Figuras © Aquaculture Brasil

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