Principal Entrevistas Carlos Magno – Embrapa
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Carlos Magno – Embrapa

Carlos Magno – Embrapa
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É uma grande honra para o time da AQUACULTURE BRASIL iniciar a seção “entrevistas” de nossa revista com uma pessoa tão especial e que representa tanto para a aquicultura brasileira e mundial: Carlos Magno!

AQUACULTURE BRASIL: Formado em Ciências Agrárias pela Universidade Federal de Viçosa (1973) e com mestrado na Universidade de Kentucky em Ciência Animal (1977), você sempre esteve à frente de pesquisas ligadas em sua maior parte a área agrícola e recentemente tem se lançado a esse desafio que é a aquicultura, no cargo de chefe geral da EMBRAPA (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária).
Na sua visão, a aquicultura brasileira vive hoje, algo similar ao que a agricultura e pecuária brasileira experimentaram há 40 anos atrás? De fato, o país do potencial está tornando-se, a partir desta década, o país do pescado?

Carlos Magno: A situação atual da aquicultura brasileira é bem parecida com a da avicultura há 40-50 anos. Creio que estamos no início de um processo que tem tudo para dar certo, desde que resolvamos alguns problemas do setor, daí, sim, poderemos pensar neste “país do pescado”.

Carlos Magno - Embrapa, Entrevistas Aquaculture Brasil

AQUACULTURE BRASIL: Como você mencionou, há ainda alguns problemas que freiam esse desenvolvimento. Portanto, quais você elencaria como os maiores gargalos da aquicultura no país e como resolvê-los?

Carlos Magno: Eu elencaria dois gargalos: licenciamento ambiental e carência de novas tecnologias. Creio que a questão do licenciamento poderia ser resolvida quase que totalmente por um processo declaratório, semelhante ao utilizado no Imposto de Renda. Este sistema já está em teste no Estado do Paraná. Da mesma forma que na declaração anual do IR, em nosso caso, o aquicultor assumiria a responsabilidade pelas informações prestadas e o órgão ambiental seria o auditor, ou seja, a “malha fina” de todo o processo. No sistema atual toda a responsabilidade do processo está direta e/ou indiretamente sob a égide do órgão ambiental, e por isso este processo é extremamente moroso e em muitos casos originam péssimos exemplos de conduta para servidores públicos, sem considerar a constante rotatividade do pessoal técnico, a baixa remuneração e principalmente, o pouco conhecimento dos processos produtivos a serem licenciados. A carência de novas tecnologias está relacionada ao novo. Temos alguma tecnologia em tilápia e camarão, espécies que vieram de fora. Para as nossas nativas ainda estamos engatinhando. Considerando a nossa imensa biodiversidade é bem provável que as espécies mais badaladas hoje (tambaqui, pirarucu, surubim, jundiá, matrinxã) provavelmente não serão as espécies que o mercado vai pedir daqui a trinta anos. E não há outra forma de desenvolvimento sustentável, que não seja pela Ciência. A agricultura brasileira é o maior exemplo desta estratégia de sucesso. Fomos grandes importadores de alimentos e depois de 40-50 anos o Brasil se tornou um dos maiores produtores e exportadores de alimentos do mundo. Podemos fazer a mesma coisa com o pescado.

AQUACULTURE BRASIL: Em eventos científicos ligados à aquicultura você vem discutindo que parte das pesquisas brasileiras não atendem às demandas diretas do setor produtivo. Ou seja, uma parcela dos projetos de pesquisa não estão em sintonia com os reais problemas da cadeia produtiva e isto pode ser observado nas apresentações orais e escritas de importantes congressos do setor. Pesquisa e produção não estão falando a mesma língua? O que fazer para mudar este panorama?

Carlos Magno: Eu tenho colocado este ponto para a reflexão de nossos colegas da academia, dos institutos de pesquisa. Desde que comecei a trabalhar neste setor em 2010 tenho observado que a maioria do material de pesquisa produzido não tem muita sintonia ou mesmo relevância para o setor produtivo. E o que mais me preocupa é que temos um grupo muito pequeno de cientistas quando comparamos às outras cadeias. Por isso necessitamos trabalhar de forma mais integrada, com mais foco, mais objetividade nos problemas reais dos nossos clientes, atuais e futuros. Penso que poderíamos ter agendas de pesquisa e transferência de tecnologia definidas por região, e dessa forma todas as instituições teriam comprometimento em resolver problemas dos nossos clientes, sejam eles aquicultores, empresários do setor de ração, da indústria de fármacos ou de processamento. Outro problema sério é que as nossas agencias de financiamento de pesquisa nos avaliam quase que exclusivamente pela produção dos famosos papers que deverão ser publicados em revistas com fator de impacto cada vez mais alto; e na maioria das vezes estes papers por eles mesmos não resolverão o problema deste ou daquele aquicultor ou mesmo da cadeia produtiva. Quando o pesquisador “traduz” este conhecimento em alguma publicação com característica mais prática, mais aplicada, esta sequer é aceita ou avaliada no curriculum deste cientista. Um grande avanço, a meu ver, além dos editais direcionados a problemas de produção, seria premiar os nossos cientistas pelo impacto que este ou aquele conhecimento (produto, processo ou serviço) teria no setor ou na cadeia produtiva. Ainda estamos longe do dia em que os melhores cientistas serão avaliados pelas patentes depositadas!!!

Carlos Magno - Embrapa, Entrevistas Aquaculture Brasil

AQUACULTURE BRASIL: Carlos Magno, a América Latina, incluindo o Brasil, vivencia uma série de surtos de enfermidades na aquicultura (vírus em tilápia, mancha branca em camarões, etc). Sistemas mais biosseguros (a exemplo de bioflocos) e integrados (aquaponia e RAS) seriam uma boa solução na busca por diminuir a incidência de doenças e obter maior controle e produtividade?

Carlos Magno: Creio que estes sistemas mais biosseguros são uma grande alternativa aos nossos produtores no momento. Acho também que precisamos investir mais em melhoramento genético. Temos hoje disponíveis uma gama de ferramentas biotecnológicas que poderiam agilizar a nossa geração de conhecimento e de forma bastante efi ciente resolvermos alguns problemas atuais e nos prepararmos para os futuros. Adicionalmente, temos que aplicar e adaptar tecnologias que possam integrar sistemas, economizar e fazer melhor uso da água.

AQUACULTURE BRASIL: Qual o papel da Embrapa no setor da carcinicultura brasileira? Estaria o setor da piscicultura sendo mais priorizado que o setor da carcinicultura pela Instituição?

Carlos Magno: A Embrapa apresenta uma expertise de cerca de 60 pesquisadores e analistas em aquicultura distribuídos em 9 centros de pesquisa, a grande maioria nos centros dos estados da região norte do país. Destes, poucos são aqueles que possuem background para atuação em carcinicultura, sendo que a grande maioria apresenta experiência em diferentes subáreas da piscicultura e isso acaba se refletindo na programação de pesquisa da Embrapa e na percepção da sociedade. Entretanto, a carcinicultura marinha também é considerada estratégica na Embrapa, tanto que no Portfolio de Aquicultura (estrutura interna de governança para priorização de espécies e de linhas de pesquisa) e na Agenda Institucional da Empresa essa área é considerada prioritária. Atualmente, o centro mais preparado para atender a carcinicultura marinha considerando a sua proximidade dos centros produtores é a Embrapa Meio Norte por meio de sua Unidade de Execução de Pesquisa localizada em Parnaíba no norte do Piauí. Entretanto, o grupo é pequeno e as ações atualmente se limitam a área de sanidade. A partir de um novo concurso é que a Empresa deverá considerar perfis com experiência em diferentes temas de relevância da aquicultura, incluindo a maricultura e em especial a carcinicultura, visando aumentar sua capacidade de prover soluções ao setor.

AQUACULTURE BRASIL: Agora de modo geral, quanto a aquicultura brasileira perdeu com a extinção do MPA? Há chances do ressurgimento da SEAP (Secretaria Especial de Aquicultura e Pesca, diretamente ligada à Presidência da República)?

Carlos Magno: Não teria números para quantificar. Entretanto, acho que perdemos muito, pois transformar o MPA numa Secretaria do MAPA mostra o desconhecimento do setor por parte dos nossos tomadores de decisão. É sabido que o pescado representa 35 e 65% da produção e exportação, respectivamente, das proteínas animais produzidas no mundo. A FAO (2010) afirmou que tínhamos no mundo um déficit de 25 milhões de toneladas de pescado no mundo. E o Brasil talvez seja o país com o maior potencial de produção de pescado. Precisamos urgentemente que nossas autoridades tomem uma decisão à semelhança do que foi feito no início dos anos de 1970, ou seja, o Brasil tomou uma decisão que iria explorar os Cerrados, e hoje somos um dos maiores produtores e exportadores de grãos do planeta. Por que não poderíamos ser o maior produtor de pescado do mundo? Temos água, clima favorável, ração, empreendedores. Necessitamos de uma decisão política e mais investimento em geração de conhecimento, de tecnologia que trarão as inovações tão necessárias a quem está na ponta. Na minha modesta opinião falta muito pouco para o início dessa nova “revolução” na produção de um alimento sabidamente de altíssima qualidade.

AQUACULTURE BRASIL: Sabemos que você tem participado ativamente das reuniões da PEIXE BR (Associação Brasileira de Piscicultura). Neste sentido, o que o motiva a “abraçar” esta entidade? Quais suas expectativas para essa parceria?

Carlos Magno: Especialmente no Brasil não há espaço para trabalhos isolados. Temos que ter foco em nossos trabalhos. A PEIXE BR é uma associação que agrega todos os elos da cadeia produtiva: produtores (suas associações e cooperativas), os frigorífi cos, as indústrias de fármacos e de ração, dentre outros. Ou seja, você hoje tem realmente uma interlocução com o setor aquícola. E nós da pesquisa precisamos auscultar esta instituição, para evitar as pesquisas tipo “determinação do sexo dos anjos”. Outra razão importante da parceria é também mostrar ao setor privado as nossas difi culdades, os nossos problemas e também, convencê-los a investir mais em ciência e tecnologia. Ainda no Brasil o setor privado investe muito pouco em ciência e tecnologia. Parcerias dessa natureza são uma via de mão dupla. Cada vez mais elas serão importantes ao desenvolvimento de qualquer setor da nossa economia. Vide investimentos privados em ciência e tecnologia nos países desenvolvidos. Ainda há muita resistência de instituições públicas em trabalhar com o setor privado. Isto tende a mudar haja vista a carência geral de recursos públicos para a ciência e tecnologia vivida atualmente. O que precisamos é, melhorar os nossos marcos legais de cooperação, e acredito que a recém aprovada Lei de Inovação trará grandes avanços nas parcerias público-privadas.

Carlos Magno - Embrapa, Entrevistas Aquaculture Brasil

AQUACULTURE BRASIL:

Em se tratando de pesquisa, a unidade da Embrapa Pesca e Aquicultura, em Palmas (TO), inaugurada há poucos meses, promete ser um dos grandes centros de pesquisa em aquicultura no país. De que forma este centro pretende contribuir com o setor? Unidades Demonstrativas apresentando diferentes modelos de produção aplicáveis no Brasil estarão entre as ferramentas da Embrapa?

Carlos Magno: A esperança é muito grande: tornar a Embrapa Pesca e Aquicultura um centro de referência em piscicultura tropical. Creio que o caminho será longo haja vista a dimensão continental de nosso país, para os, pelo menos, cinco Brasis. O grande desafio a ser enfrentado é estruturar um Plano Estratégico, ou seja, o que queremos ser na Pesca e na Aquicultura daqui há 10, 20 ou 30 anos? Temos inúmeros sistemas de produção tanto na Pesca e na Aquicultura a serem melhorados. A nossa biodiversidade aquícola sem sombra de dúvida é a maior do mundo. Isto dependendo da análise poderá ser um grande fator de sucesso caso tomemos decisões acertadas, ou um tremendo fracasso se nossas escolhas atuais forem equivocadas. A Embrapa tem um modelo próprio de gestão e avançamos muito na agricultura com ele. A ideia da Embrapa Pesca e Aquicultura é utilizar desse modelo para prover soluções tecnológicas aos nossos clientes, e como sempre, em parcerias com instituições públicas ou privadas. Em relação às Unidades Demonstrativas elas fazem parte da nossa metodologia de trabalho, pois só consideramos uma tecnologia validada quando esta é apropriada pelos nossos clientes.

AQUACULTURE BRASIL: Com uma capacidade de absorver inúmeros técnicos e pesquisadores, uma pergunta que muitos futuros candidatos às vagas de trabalho estão se fazendo há algum tempo: “Quando abrirá um novo concurso para a Embrapa Pesca e Aquicultura?” Existe alguma previsão acerca do número de contratações? Pode-se contratar até mais de 100 novos pesquisadores apenas na área de aquicultura?

Carlos Magno: Vai depender de quando o Brasil sairá desta crise. Há de se considerar que a palavra gasto está proibida em todas as esferas governamentais. Entretanto, somos otimistas e sabemos que quase todas as instituições públicas brasileiras tem o problema do envelhecimento do pessoal como uma grande ameaça. A Embrapa tem também este problema, mas não é tão grave como em outras instituições, haja vista termos contratado cerca de 1000 pessoas entre 2008 até 2012. Estas contratações foram para repor pessoas que saíram em nosso PDI iniciado em 2008. A Embrapa Pesca e Aquicultura possui estrutura para um quadro de 240 pessoas (hoje somos 82). Não existe uma decisão do governo em relação à data do próximo concurso, entretanto, há esperança que ele ocorra em 2018.

Carlos Magno - Embrapa, Entrevistas Aquaculture Brasil

AQUACULTURE BRASIL: Por fim, deixe uma mensagem para nossos leitores.

Carlos Magno: A Pesca e Aquicultura precisam marchar juntas. Sabemos que são atividades diferentes, mas complementares e, somente pela união das lideranças destes dois setores seremos e teremos uma atividade forte. Não precisamos morrer de amores por alguém para trabalharmos juntos. Precisamos hoje de líderes com pensamento estratégico, fazendo prospecções para os próximos 5, 10, 25 e 50 anos. A Pesca e Aquicultura que queremos para o futuro terão de ser planejadas nos dias de hoje. Creio que este será o nosso maior desafio: trabalho, união, planejamento e atitudes estratégicas. Não podemos perder mais tempo com essas infindáveis discussões, que não nos levam a nada e tão pouco a lugar algum. As outras cadeias devem achar graça do nosso despreparo, amadorismo e desunião. Ao trabalho e unidos