Principal Entrevistas Cultivo de Camarões Ana Carolina De Barros Guerrelhas – AQUATEC

Ana Carolina De Barros Guerrelhas – AQUATEC

Ana Carolina De Barros Guerrelhas – AQUATEC
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É uma grande honra para o time da AQUACULTURE BRASIL iniciar a seção “entrevistas” de nossa revista com uma pessoa tão especial e que representa tanto para a aquicultura brasileira e mundial: Ana Carolina De Barros Guerrelhas.

Ana Carolina De Barros Guerrelhas - AQUATEC, Entrevistas Aquaculture Brasil (01)

AQUACULTURE BRASIL: Ana, primeiramente, você poderia falar um pouco para os leitores da AQUACULTURE BRASIL sobre a sua formação acadêmica e o seu currículo profissional?

Ana Carolina: Sou Bióloga marinha formada na USP -1977 e tendo especialização em Oceanografia Biológica no Inst. Oceanográfico da USP -1978. Trabalhei 5 anos na SUDEPE/ MAPA analisando e acompanhando projetos de pesquisa – até 1981. Trabalhei 1 ano na ICOMI-Amapá em projeto de engorda de M. rosenbergii. Trabalhei em laboratório na Bahia com produção de Pls do L. vannamei, por 3 anos até 1986. Fiz algumas consultorias em Larvicultura de camarão marinho e em 1988 me entreguei de corpo e alma ao projeto da Aquatec onde estou até hoje.

AQUACULTURE BRASIL: A partir da graduação em Biologia, como a Aquicultura entrou em sua vida?

Ana Carolina: Quando trabalhei na SUDEPE fui contraparte brasileira de consultores da FAO na área de Aquacultura. Também na SUDEPE tive a oportunidade de conhecer e depois trabalhar em 2 projetos de camarão, sendo 1 de água doce – Amapá e outro marinho na Bahia.

AQUACULTURE BRASIL: O empreendedorismo não é tão difundido nas universidades (pelo menos em nossa área) assim como a pesquisa/docência. Na sua opinião, de que forma um acadêmico, com tão pouca preparação para a iniciativa privada, poderá um dia construir um negócio de sucesso na aquicultura?

Ana Carolina: Acho que empreender não se aprende, mas se nasce com a aptidão para; existem muitos cursos orientados para esta área mas o verdadeiro empreendedor já nasce assim. Um bom começo é saber projetar uma unidade produtiva, seja fazenda, laboratório ou beneficiamento; entender a administração de uma unidade produtiva-pessoas e processos administrativos; entender as finanças e leis envolvidas; entender como funcionam os custos e aprender a manejá-los; o mais importante se entregar 100% a todas as áreas do negócio.

Ana Carolina De Barros Guerrelhas - AQUATEC, Entrevistas Aquaculture Brasil (02)

AQUACULTURE BRASIL: Conte-nos um pouco sobre a aquicultura que existia no Brasil quando você iniciou sua trajetória. Algo de bom ficou pelo caminho? Quais os grandes erros estratégicos cometidos pelo Brasil que ainda o fazem não figurar entre as principais potencias aquícolas mundiais?

Ana Carolina: Só existia fora do Brasil e copiávamos tudo do que existia no Equador e Ásia. Nada era proibido no Brasil nem na área ambiental, nem na Trabalhista e nem na legislação, Resolvíamos tudo com conversa e bom senso. Tínhamos que buscar muita informação e esta busca deixou muita experiência que os que vieram depois já receberam tudo pronto. O que segura nosso deslanchar é a burocracia da parte ambiental e trabalhista. Crescemos muito e o governo abriu os olhos para nós. Nunca nos organizamos como produtores e nunca nos firmamos politicamente como produtores e acho que este foi nosso maior erro.

AQUACULTURE BRASIL: A AQUATEC é considerada uma empresa referência em genética e produção de pós-larvas de Litopenaeus vannamei no Brasil. Como vocês conseguiram atingir este nível de excelência?

Ana Carolina: Quando começamos não existia outra empresa; tanto eu como meu ex-Sócio Werner Jost sempre primamos por desvendar o desconhecido e fazer um trabalho de excelência; o desconhecido era nosso grande desafio e transformar este desconhecido em viável. Acho que juntar 2 pessoas com este pensamento fez com que construíssemos nossa trajetória. Ficamos sozinhos no mercado por alguns anos e se abriu a oportunidade de firmar nossa marca e a forma de levar uma empresa.

Ana Carolina De Barros Guerrelhas - AQUATEC, Entrevistas Aquaculture Brasil (03)

AQUACULTURE BRASIL: O vírus da Síndrome da Mancha Branca, lamentavelmente, atingiu a região de Aracati, uma das principais áreas de produção de camarão marinho do Brasil. Vocês já sentiram uma redução na demanda de pós-larvas? Em sua opinião, algo poderia ter sido feito para evitar a disseminação da doença no País? (Haja vista a “subida” do vírus, desde SC (2004), BA (2008),RN (2011), etc.).

Ana Carolina: A Aquatec sempre sentiu a chegada das doenças de importância e a MB foi bem pesado quando entrou no RN em 2011; hoje seguimos sentindo e é pior porque existe a concorrência que quer seguir produzindo nos mesmos níveis; com a entrada da MB no Ceará já baixamos nossa produção para 40% e pensamos que é melhor segurar a produção do que baixar o preço ou abrir para crédito. Acho que não tem como diminuir a ocorrência de doenças enquanto tivermos os sistemas produtivos que temos. Vejo 3 caminhos no assunto doenças: decidir se quer adotar práticas de produção controladas e previsíveis, ou práticas que não se consegue controlar os resultados, ou por fim, sair da atividade. No caso do Brasil, seria melhor aceitar a convivência com as doenças, trabalhar no nível que cada sistema suporta em função das variáveis ambientais e fazer um trabalho de aumentar a área de produção; não acredito que o perfil de produtor de hoje no Brasil suporte e desenvolva sistemas de produção controlados e previsíveis como são os intensivos, por exemplo. Quando surgiu a MB no nordeste já tínhamos passado por BP, TSV, IHHNV, NHP e IMNV e seguimos produzindo como se “doenças” não merecessem atenção especial e demandassem mudanças de estratégia na indústria; não adianta uma empresa mudar, todas tem que mudar. Boas Práticas e Biosseguridade é um aspecto importante na convivência com as doenças, mas os manejos adotados em cada região também merecem atenção especial; não se trata de usar um manejo enquanto a doença está se manifestando, mas é uma mudança permanente.

Ana Carolina De Barros Guerrelhas - AQUATEC, Entrevistas Aquaculture Brasil (04)

AQUACULTURE BRASIL: Você acredita nos programas de melhoramento genético para resistência a enfermidades virais?

Ana Carolina: Acredito que cada sistema produtivo deva desenvolver linhagens para suas necessidades; não acredito na genética de camarão para resistência, pelo menos com o nível de conhecimento que temos hoje no mundo. Acho que no campo da resistência quem tem que mudar é o manejo e não a genética.

AQUACULTURE BRASIL: Recentemente, a empresa brasileira AQUABEL foi adquirida por uma multinacional com pretensões de fazer da tilápia brasileira o que foi feito no salmonicultura. A AQUATEC, há alguns anos atrás, também experimentou um processo de venda para uma empresa internacional. Quais os motivos a levaram a recomprar sua empresa?

Ana Carolina: A Aquatec foi comprada por uma empresa chamada Sygen, uma bem sucedida empresa em melhoramento de suínos; anos depois outra bem sucedida empresa de melhoramento de bovinos – Genus, comprou a Sygen porque queria dominar melhoramento de suínos também. A Sygen investia um futuro, porém a Genus só nos negócios já bem estabelecidos e controlados e como a Carcinicultura apresenta suas oscilações e riscos optou por se desfazer do negócio “Camarão”. Nos foi oferecido a recompra por uma condição muito boa e então resolvemos ter a Aquatec de volta, uma vez que na prática nunca saiu das nossas mãos.

AQUACULTURE BRASIL: Qual será o futuro da aquicultura brasileira? Podemos ser um “gigante” com a China?

Ana Carolina: Pergunta difícil de responder porque ouço já por 35 anos que a carcinicultura brasileira é um potencial enorme e vai deslanchar. Tivemos um crescimento rápido com a entrada do vannamei no Brasil a nível de toneladas produzidas, mas faltou a organização dos produtores, faltou dar peso político nessa organização, faltou agilidade em contornar as consequências das doenças, faltou agilidade em mudar as estratégias de mercado. Hoje se vê a indústria mais organizada, com mais força política e associações estaduais fazendo bons trabalhos, então, quem sabe vamos retomar nosso crescimento que ficou quase parado. Acredito muito na Aquicultura mas não acredito que o Brasil será como a “China”, nunca.

AQUACULTURE BRASIL: Para finalizar, você pode nos contar quais são os planos futuros da AQUATEC. Vem novidades por aí?

Ana Carolina: Futuro…difícil pensar no meio do furacão, mas pensamos em investir numa linha de tolerância. A Aquatec é o único laboratório no Brasil que detém a expertise e produz linha de crescimento; somos os únicos a ainda ter estoques de material “spf” livre dos patógenos de importância, foras das instalações da Aquatec-RN; não se questiona e nem se compara nossas taxas de crescimento e uniformidade de tamanhos. Entretanto, apenas uma pequena parcela do mercado saber trabalhar com crescimento, a maior parte pede “sobrevivência” não importando o tamanho que se pesque. Neste sentido entra a ideia de produzir linhas “regionais” de tolerância. A parceria Aquatec e Bomar no Ceará, já resultou num laboratório de larvas em Cajueiro a Praia- PI com reprodutores selecionados em viveiros: a ideia deste programa é diminuir a desuniformidade e aumentar a taxa de crescimento nos resultados do grupo, usando reprodutores selecionados em viveiros: não é nada fácil! Este laboratório vai produzir para o grupo Bomar e atender outros produtores da região. Na Aquatec-RN já está em andamento a formação de plantel de reprodutores sobreviventes de viveiros de Mancha Branca, em condição “saudável”; quero dizer que selecionamos sobreviventes fortes que mantem altas taxas de sobrevivência após a despesca, o que não é comum nos programas de sobreviventes de viveiros.

Ana Carolina De Barros Guerrelhas - AQUATEC, Entrevistas Aquaculture Brasil (05)

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