Principal Colunas Verão – Será que seu peixe necessita um alimento diferenciado?

Verão – Será que seu peixe necessita um alimento diferenciado?

Verão – Será que seu peixe necessita um alimento diferenciado?
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Nos meus artigos anteriores mencionei inúmeras vezes a importância de fornecermos um alimento adequado para atender as exigências e as demandas nutricionais dos organismos aquáticos em questão. Nesse sentido, o que vem de imediato em nossa mente é o fornecimento de uma ração para cada fase: berçário, pré-engorda, engorda e pré-despesca. Mas será que outros fatores, como por exemplo a variação de temperatura da água ao longo das estações do ano, têm influência nas exigências nutricionais a ponto de se desenvolver uma dieta específica?

Para responder a essa e outras questões o Dr. Fernando Norambuena (atualmente pesquisador sênior da empresa Biomar) realizou uma série de experimentos com diferentes espécies de peixes incluindo a Truta Arco-Íris, o Salmão do Atlântico e o Linguado Sole Europeu (Foto 1).

Foto 1. Linguado Sole Europeu

Foto 1. Linguado Sole Europeu.

Uma de suas pesquisas com reprodutores do Linguado Sole Europeu consistiu em utilizar um alimentador automático por demanda, ou seja, um alimentador automático que é acionado pelo próprio peixe quando necessita alimento (Fotos 2 e 3). Mais especificamente, esse sistema possui três partes: (1) alimentador automático por demanda, (2) registro de atividade de demanda e (3) computador para armazenar todas as informações (Diagrama 1). Para melhor desempenho nesse tipo de sistema é necessário um “treinamento” para que os peixes se acostumem e entendam a necessidade de acionar o alimentador para obter alimento. Uma vez acostumados, não se observam problemas relacionados a falta de alimento, saúde e crescimento dos peixes.

Foto 2. Alimentador automático por demanda.

Foto 2. Alimentador automático por demanda.

Foto 3. Sistema do alimentador automático por demanda, em que os peixes o acionam para se alimentar

Foto 3. Sistema do alimentador automático por demanda, em que os peixes o acionam para se alimentar.

Nesse mesmo estudo, foram analisadas duas dietas com diferentes níveis de ácido araquidônico (ARA – 20:4n-6): dieta A – rica em ARA e dieta B – pobre em ARA. As duas dietas foram colocadas em dois alimentadores automáticos independentes e cada tanque possuía dois alimentadores com as duas dietas. Para evitar resultados tendenciosos, a posição dos alimentadores foi modificada seis vezes durante o experimento. No final de 70 semanas, observou-se que ao longo do ano a preferência por ARA estava relacionada à variação de temperatura da água (Figura 1). Os peixes preferiram a dieta A (rica em ARA) nos meses de verão e início de outono, enquanto que a dieta B (pobre em ARA) foi mais consumida nos meses de inverno.

Esse resultado é bastante interessante em diversos aspectos. Primeiramente pelo fato do organismo ter a habilidade de escolher a melhor dieta segundo suas preferências e necessidades fisiológicas. Em segundo lugar, pelo fato do peixe exigir mais ARA no verão do que no inverno. O ARA é um ácido graxo poliinsaturado de cadeia longa (LC-PUFA, do inglês long-chain polyunsaturated fatty acid) bastante importante fisiologicamente, participando de maneira ativa em processos como crescimento, sobrevivência, resistência ao estresse e reprodução. Além disso, esse estudo mostra a relevância que apenas um nutriente (nesse caso o ácido graxo ARA) pode ter para a nutrição geral do peixe e a sutileza do organismo em selecionar dietas idênticas que somente se diferenciam pelo nível desse ácido graxo. Por fim, é necessário termos um melhor entendimento sobre as preferências nutricionais das espécies em função da temperatura da água, pois as mudanças climáticas estão cada vez mais bruscas e aleatórias, sendo muitas vezes associadas ao aquecimento global.

O intuito desse artigo foi levar um assunto novo e interessante para o conhecimento de todos e também mostrar uma das novas frentes para a nutrição aquícola. Através desse tipo de sistema (alimentador automático por demanda) é possível obter dados, informações e conhecimento nunca pensados, pois quem melhor do que o próprio organismo para nos indicar sua preferência nutricional? Além disso, essa linha de pesquisa pode ser expandida para outros organismos aquáticos e esses resultados podem ser também interessantes do ponto de vista ecológico, comportamental, fisiológico, produtivo, nutricional, entre outros.

Figura 4. Ilustração do sistema do alimentador automático por demanda. © Norambuena et al., 2013.

Foto 4. Ilustração do sistema do alimentador automático por demanda. © Norambuena et al., 2013.

Figura 5. Seleção das dietas (A – rica em ARA, pontos pretos; B – pobre em ARA, pontos brancos) de acordo com as preferências nutricionais e fisiológicas de reprodutores de Linguado Sole Europeu durante 70 semanas. As setas representam as trocas de dietas e posição dos alimentadores automáticos. © Norambuena et al., 2013.

Foto 5. Seleção das dietas (A – rica em ARA, pontos pretos; B – pobre em ARA, pontos brancos) de acordo com as preferências nutricionais e fisiológicas de reprodutores de Linguado Sole Europeu durante 70 semanas. As setas representam as trocas de dietas e posição dos alimentadores automáticos. © Norambuena et al., 2013.

Referências bibliográficas:
Norambuena, F., Estévez, A., Sánchez-Vásquez, F.J., Carazo, I., Duncan, N. Self-selection of diets with different contents of arachidonic acid by Senegalese sole (Solea senegalensis) broodstock. Aquaculture, 364-365:198-205.
Norambuena, F., Morais, S., Emery, J.A., Turchini, G.M. 2015. Arachidonic acid and eicosapentaenoic acid metabolism in juvenile Atlantic Salmon as affected by water temperature. Plos One 10(11):e0143622.

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