Principal Colunas É sustentável a indústria de alimentos aquícolas?

É sustentável a indústria de alimentos aquícolas?

É sustentável a indústria de alimentos aquícolas?
0

O que é sustentabilidade? O que é uma atividade sustentável? A definição e a aplicação da sustentabilidade são mais complexas do que parecem. De modo simples, esse termo pode ser definido como uma abordagem que visa a permanência de um processo durante um período de tempo. Uma atividade sustentável pressupõe que ela seja economicamente viável (lucrativa), ambientalmente consciente e socialmente responsável. A partir desse pressuposto, é sustentável a indústria de alimentos aquícolas?

Mais de 70% da produção aquícola mundial (principalmente a de carpa, tilápia, camarão, bagre, peixes marinhos e salmão) depende do fornecimento de ração. Estima-se que a produção de alimentos aquícolas aumente de 49,7 milhões de toneladas em 2015 para 87,1 milhões de toneladas em 2025. Uma gama de ingredientes é utilizada na fabricação de ração, porém os de origem marinha (farinha e óleo de peixe) são considerados os mais importantes. A indústria aquícola é a maior consumidora, demandando anualmente 68% da produção de farinha de peixe e 74% da produção de óleo de peixe. As “reduction fisheries” (espécies pesqueiras que servem de matéria-prima e são reduzidas para a produção de farinha e óleo de peixe) são consideradas estáveis e bem regulamentadas, mas é improvável que sua produção aumente no futuro. Vale ainda ressaltar alguns pontos normalmente esquecidos:

(1) a aquacultura consome 20-30 milhões de peixes selvagens na produção de farinha e óleo de peixe, mas produz 74,3 milhões de toneladas de pescado (dados de 2014 – FAO 2015), e (2) a produção global de farinha e óleo de peixe se mantém constante por mais de cinco décadas, enquanto que a aquacultura continua a crescer.

Dessa forma, a oferta limitada frente à crescente demanda é um fator determinante na majoração dos preços desses ingredientes. Por outro lado, essa realidade estimula a procura e o desenvolvimento de fontes alternativas de proteínas e lipídios para promover uma expansão sustentável da indústria aquícola.
O debate sobre a crescente utilização da farinha e óleo de peixe nos alimentos aquícolas é bastante polêmico. Nesse contexto, surgiu o conceito FIFO (do inglês “fish in fish out ratio”), que tem como objetivo mostrar quantas toneladas de peixes selvagens são necessárias para produzir uma tonelada de peixe de criação. O cálculo do FIFO é:

FIFO

Para entender melhor a aplicação do FIFO, é importante saber os níveis de inclusão desses ingredientes nos alimentos aquícolas (Figura 1).

De maneira geral, as rações comerciais utilizam em média 24% de farinha e óleo de peixe. Mais especificamente, em alimentos para peixes herbívoros e omnívoros são utilizados em média apenas 4%, para peixes marinhos e carnívoros 30%, e para camarões Peneídeos 21%. A partir dessas informações, nota-se uma grande diferença entre as espécies de diferentes níveis tróficos ou níveis de carnivoria (esse tema será explorado futuramente).

Nível médio de inclusão de farinha e óleo de peixe em alimentos aquícolas para diversas espécies

Figura 1. Nível médio de inclusão de farinha e óleo de peixe em alimentos aquícolas para diversas espécies.

A Tabela 1 exemplifica formulações típicas e modernas utilizadas para diferentes espécies com exigências nutricionais distintas (níveis de energia elevado, médio e baixo). Nota-se claramente a diminuição do uso da farinha de peixe, principalmente nas formulações de elevada energia para peixes carnívoros, e o aumento da inclusão de produtos vegetais como o concentrado proteico de soja.

No período de 1995 até 2006 houve um grande declínio no valor do FIFO, especialmente para peixes marinhos e peixes carnívoros (TACON e METIAN 2008). O salmão (1995-2006: 7,5 – 4,9), por exemplo, tinha um valor de 7,5 em 1995, indicando que para produzir uma tonelada de salmão eram necessárias 7,5 toneladas de peixes selvagens, mas em 2006 esse valor caiu para 4,9, sendo esperada uma diminuição ainda maior nos próximos anos.

Comparação entre formulações típicas e modernas para engorda de espécies carnívoras e omnívoras.

Tabela 1. Comparação entre formulações típicas e modernas para engorda de espécies carnívoras e omnívoras.

* Adaptado de TRUSHENSKI 2014;
** Outros – inclui micro-ingredientes, aglutinantes, antioxidantes, etc;
*** valores em g/kg

Outras espécies também apresentaram redução no valor do FIFO, como a truta (6,0 – 3,4), os peixes marinhos (3,0 – 2,2) e os camarões Peneídeos (1,9 – 1,4). Apesar das espécies herbívoras e omnívoras apresentarem valores baixos do FIFO, algumas espécies como a tilápia (0,9 – 0,4) e os crustáceos de água doce (1,0 – 0,6) também apresentaram uma diminuição.

É previsto que a inclusão de farinha e óleo de peixe na composição dos alimentos aquícolas diminua progressivamente nos próximos anos, visando reduzir a utilização e a dependência dos mesmos. Assim, a tendência é que a farinha e o óleo de peixe se tornem ingredientes especiarias devido ao preço elevado e à oferta limitada, e portanto sejam utilizados em alimentos de altíssima qualidade apropriados para períodos específicos do ciclo de produção, como larvicultura, berçário, pré-despesca e reprodução.

Por fim, o propósito desse artigo foi apresentar alguns dos principais fatos relevantes para o desenvolvimento sustentável da indústria de alimentos aquícolas e gerar debate sobre os mesmos. Além disso, contribuir com seu conhecimento para uma reflexão sobre esse importante tópico.

tags: