Ambiência na aquicultura

Ambiência na aquicultura
0

Produzir mais, sem abrir novas áreas e com respeito ao meio ambiente. Eis o desafio de todas as cadeias produtivas imbuídas da nobre missão de alimentar uma população mundial crescente. Tarefa nada fácil para um setor que é pouco reconhecido pela sua importância e que, portanto, pouco contemplado por políticas públicas.

No caso da aquicultura, a sensação é que as cobranças para uma produção sustentável são ainda maiores. E não há dúvidas que é isto que todos os envolvidos desejam, pois, é justamente o setor que mais depende de um ambiente equilibrado. Acontece que muitas vezes estas cobranças soam como injustas, implicando em certo desânimo.

Por outro lado, é extremamente empolgante saber que a produção de organismos aquáticos é a atividade que mais tem condições de atender as exigências modernas de se produzir alimentos. Seja em quantidade ou qualidade.

No aspecto de quantidade, praticamente todos os solos agricultáveis do mundo já estão ocupados. Enquanto que no caso dos organismos aquáticos, ainda temos muitos ambientes aquáticos, seja água doce ou salgada, para explorar. Sem contar que já dispomos de tecnologia até mesmo para produzir em águas salobras de poços. Mas é no aspecto de qualidade que vislumbra-se as características mais animadoras.

Não há dúvidas que a aquicultura reúne condições para ser a proteína (seja animal ou vegetal) mais sustentável.

Estou me referindo à capacidade que o aquanegócio tem de produzir alimentos deixando um mínimo de residual para o ambiente, já que estamos descobrindo alternativas de como colocar o próprio ambiente para trabalhar a favor da produção de organismos aquáticos. E isto partindo de uma premissa bem básica e em concordância com as exigências da sociedade moderna: CRIAMOS ÁGUA, NÃO PEIXE!!! E lógico, isto vale para crustáceos, moluscos, anfíbios, algas e etc.

Ambiência na Aquicultura - Fábio Sussel, Atualidades e Tendências na Aquicultura

E já temos aquicultores brasileiros, sejam tilapicultores no sul, carcinicultores no nordeste e de peixes nativos no norte / centro oeste, produzindo com esta mentalidade, com este objetivo. E aí temos observado piscicultura intensiva devolvendo água com características melhores que a captação, e carciniculturas em sistemas superintensivos sem qualquer descarte de água para o ambiente (a água que sai dos viveiros de cultivo vai para lagoas de decantação e depois volta para os viveiros de produção, onde a captação de água nova é apenas para compensar o perdido por evaporação ou infiltração no solo).

Mas como isto é possível? Em linhas gerais, colocando as características naturais do ambiente aquático para trabalhar a favor da produção de alimentos. Um conceito que vem sendo denominado de “ecologia produtiva”. Sim, é possível potencializar as características naturais dos ambientes aquáticos e torná-los mais produtivos. Basicamente, inserindo e estimulando a proliferação de bactérias benéficas (probióticos) e fornecimento contínuo de oxigênio. No caso do oxigênio, a preocupação vai muito além se o mesmo encontra-se adequado para os peixes ou camarões junto à comporta de drenagem. Preconiza-se que o oxigênio esteja adequado para as bactérias benéficas que encontram-se por todo o viveiro, especialmente no fundo, na interface solo-água.

Algo simples e que há muito tempo é estudado, só que agora sim encontrando o adequado equilíbrio, tornando o próprio ambiente de produção o maior aliado do aquicultor. Sendo possível inclusive escutar relatos do tipo: “Se tenho uma água rica em nutrientes, porque vou descartá-la?”

Atualmente, já dispomos de empresas que realizam à identificação, seleção e multiplicação destes microrganismos benéficos. E fornecem um produto comercial que já contém o “blend”, ou seja, uma mistura de bactérias benéficas, além de alguns minerais e outros bio-fertilizantes. Então, utilizando-se de uma biotecnologia natural, ou seja, microrganismos não patogênicos, não oportunistas e não modificados geneticamente, é possível aumentar a carga destes seres vivos benéficos no viveiro de produção.

Teoricamente, quanto mais nutrientes na água, maior a proliferação destes microrganismos benéficos, desde que o oxigênio esteja em níveis adequados e as oscilações de temperatura sejam as mínimas possíveis. Consequentemente, mais alimentos, em menores áreas e mais respeito ao meio ambiente!

Ou seja, o que um dia foi desafio hoje se mostra como oportunidade. Sem contar que ainda há os aspectos de menor exigência energética para mantença, maior eficiência nutricional, entre outros… Enfim, só depende de nós… sem perder o foco:

“CRIAMOS ÁGUA, NÃO PEIXE”

Figuras © Fábio Sussel

tags: