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Vacinas contra parasitos de peixes – Uma realidade muito distante?

Vacinas contra parasitos de peixes – Uma realidade muito distante?
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Karen Roberta Tancredo¹*, Maurício Laterça Martins¹ e Gabriela Tomas Jerônimo
¹Laboratório AQUOS – Sanidade de Organismos Aquáticos, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis – SC
²Laboratório de Ictioparasitologia – Universidade Nilton Lins, Manaus/AM
*roberta.tancredo@gmail.com

Não é mais novidade que os surtos de doenças na aquicultura, por muitas vezes, ocorrem pela falta de boas práticas de manejo, alimentação inadequada e situações precárias de qualidade da água. Estes fatores contribuem para um cenário onde parasitos oportunistas se proliferem em curtos períodos de tempo. Sendo assim, é necessário intervir com medidas de controle sanitário, após fazer um correto diagnóstico para ter conhecimento sobre a doença parasitária, como o ciclo de vida e ecologia dos parasitos. Uma vez diagnosticada a doença, o tratamento ou medidas profiláticas, devem ser imediatos, a tempo de evitar perdas.

Ainda de caráter inovador, um dos métodos que se tem investido esforços para controlar as parasitoses, envolve o desenvolvimento de vacinas como método imunopro-filático. A vacinação contra parasitos de peixes é pouco conhecida quando comparada com o conhecimento gerado por estudos que são realizados com bactérias e vírus. As razões que justificam tamanha dificuldade no desenvolvimento de vacinas para parasitos são principalmente problemas encontrados na manipulação dos protozoários e helmintos em laboratório, dificuldades no seu cultivo in vivo e in vitro, complexidades de seu ciclo de vida, que pode envolver mais de um hospedeiro.

Com relação às pesquisas, a maioria são direcionadas para os parasitos protozoários patogênicos mais comuns, e a proliferação deles no ambiente se dá por simples divisão celular, em curto período de tempo, produzindo milhares de células-filhas. Podemos citar o Ichthyophthirius multifiliis, causador da doença dos pontos brancos (Figura 1), Trypanosoma sp., Cryptobia sp., Glugea sp., que podem causar mortalidades indesejadas nos cultivos de peixes. No Brasil, pesquisadores se esforçam em desenvolver uma vacina específica para ictiofiríase testando dois métodos, via injeção intraperitoneal e banho de imersão.

Figura 1. Jundiá infestado com trofontes de Ichthyophthirius multifiliis. © Karen Roberta Tancredo.

Figura 1. Jundiá infestado com trofontes de Ichthyophthirius multifiliis. © Karen Roberta Tancredo.

 

Métodos de vacinação para peixes

Diferentes métodos podem ser utilizados na vacinação de peixes:

1) Via injetável (Figura 2), geralmente aplicada próxima a uma das nadadeiras;
2) Banho de imersão, em que os animais são imersos em solução aquosa contendo os antígenos vacinais;
3) Administração oral (Figura 3) das vacinas colocando diretamente dentro da boca ou inserida na ração.

Figura 2. Método via injetável © Kennebec River Biocences.

Figura 2. Método via injetável © Kennebec River Biocences.

Figura 3. Método via oral, através da alimentação © Kennebec River Biocences.

Figura 3. Método via oral, através da alimentação © Kennebec River Biocences.

Esses métodos apresentam vantagens e desvantagens quanto à eficácia, praticidade, efeitos colaterais e custo-benefício. As vacinas injetáveis são as que induzem respostas ao sistema imunológico dos peixes com maior intensidade, rapidez e podem ser mais duradouras, em comparação com as demais vias. Entretanto, demandam mão de obra técnica no momento da aplicação e ainda há possibilidade de perfurar algum órgão interno do peixe, ou machucando a si mesmo. Além disso, os peixes devem ser vacinados um a um com uma dose previamente ajustada, quando necessário. A opção por anestesiar os animais antes do procedimento, depende do conhecimento técnico de cada produtor, levando-se em consideração problemas secundários, como a morte por anestesia profunda.

Na prática, as vacinas de baixo custo e que não demandam manejo intenso dos peixes durante a vacinação, são por meio de banho de imersão. No banho, a vacina é aplicada diretamente no tanque em que estão os peixes, adicionando uma parte da vacina para cada dez partes de água. Este método apresenta melhor resultado em pisciculturas, permitindo a imunização de milhares de peixes em curto período de tempo. Contudo, este procedimento apresenta como desvantagem a necessidade de grande volume da vacina para garantir o efeito esperado. Para muitos piscicultores, o simples fato de adicionar um produto na ração já é um procedimento ciente para o fortalecimento do sistema imunológico do peixe. Entre os aspectos positivos da adoção desse método, está o menor estresse causado no peixe, dispensando a manipulação individual dos animais, permitindo a vacinação de maior número de indivíduos de qualquer tamanho, sem custo extra de trabalho. Já a maior dificuldade é que o método pode apresentar menor eficácia, uma vez que não se sabe se todo o plantel está se alimentando igualmente, não garantindo que todos quem imunizados.

A utilização de vacinas em peixes, já é uma realidade em vários países para enfermidades bacterianas e virais, sendo recente no Brasil. No país, há registro apenas de uma vacina comercial usada em tilápia do Nilo, espécie mais cultivada no país, afim de controlar a Streptococcus agalactiae, importante bactéria causadora de severos prejuízos na tilapicultura. Entretanto, vale ressaltar que pesquisas realizadas por universidades brasileiras, de forma muito prematura, se esforçam em desenvolver uma vacina específica para a ictiofiríase, as quais apresentam respostas positivas quanto a imunização. No entanto, ainda são necessários ajustes às condições de vacinação, pois a temperatura e o tamanho dos peixes afeta significativamente sua eficácia.

A vacina é uma necessidade no mercado aquícola uma vez que o combate à ictiofiiríase é pouco eficaz com a utilização de produtos preconizados, principalmente quando o problema é diagnosticado tardiamente. Além disso, muitos produtos químicos são utilizados pelos produtores, de forma descontrolada, com resultados ineficazes. Entretanto, a preparação de uma vacina para “ictio”, esbarra na dificuldade de se produzir antígenos em larga escala pelos métodos tradicionais, uma vez que os trofontes (forma matura do parasito no peixe) são parasitos obrigatórios e não se desenvolvem em meios de culturas convencionais, utilizados em condições laboratoriais. Uma alternativa é a produção de vacinas a partir da utilização da tecnologia do DNA recombinante, na qual são inseridos genes que codificam antígenos de interesse em outros micro-organismos, cujo cultivo laboratorial está dominado (por exemplo: Tetrahymena thermophila), mas essa tecnologia não está disponível, encontrando-se ainda em fase de pesquisas.

Em resumo, os estudos sobre a vacinação de peixes com parasitos precisam de diversos ajustes para que se tornem realidade próxima nas pisciculturas comerciais. A eficácia dos métodos deve ser comprovada e protocolada para superar os tratamentos e medidas profiláticas, que são usados mais frequentemente na aquicultura, dos quais destacam-se, o cloreto de sódio, verde malaquita, sulfato de cobre, formalina, permanganato de potássio, bicarbonato de sódio, entre outros. Para finalizar, a adoção de uma vacina vai muito além de apenas isolar o antígeno, necessita-se de estudos de sua ciência frente a desafios, aliados a nutrição adequada, densidade de estocagem, qualidade da água, biologia do hospedeiro, ciclo de vida do parasito, custos e viabilidade.

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