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A Síndrome do Vírus da Mancha Branca no Cultivo de Camarões no Ceará – Relatos e Perspectivas

A Síndrome do Vírus da Mancha Branca no Cultivo de Camarões no Ceará – Relatos e Perspectivas
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Márcio A. Bezerra, Engenheiro de Pesca
Prof. Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará – Aquicultura
mab.aquicultura@gmail.com

Atualmente, o Estado do Ceará se notabiliza por ser o maior produtor de camarões da espécie Litopenaeus vannamei do Brasil. Esse cultivo tem se desenvolvido tanto em áreas litorâneas com a influência direta de águas estuarinas e marinhas, quanto em áreas de terra firme, longes das ações das marés oceânicas, e próximas as bacias hidrográficas continentais do Estado.

Nesse histórico de produção, a carcinicultura cearense tinha sofrido, mais precisamente entre os anos de 2003 e 2006, seu maior desafio frente às enfermidades virais que assolam essa modalidade aquícola; e os resultados foram extremamente negativos em todos os aspectos técnico-econômicos da produção (Tabela 1). À época, a causa principal para essa queda abrupta na produção do Ceará, tratava-se de um surto viral sistêmico que, supostamente, partiu do litoral oeste para o litoral leste do Ceará, e era caracterizado por uma enfermidade viral reconhecida, internacionalmente, como IMNV (Infectious Mionecrosis Virus) ou, no Brasil, Síndrome da Necrose Infecciosa Muscular (NIM).

Tabela 1. Fonte: Pantoja (2005) e Madrid (2006).

Tabela 1. Fonte: Pantoja (2005) & Madrid (2006).

As lições que a NIM trouxe para os produtores de camarão do Ceará não foram suficientes para que, nesse ano de 2016, fosse evitado um evento que imporá um dos grandes desafios que a carcinicultura cearense deverá passar nos próximos tempos. Mais um surto viral sistêmico. Causado por uma das enfermidades virais mais temidas em todo o mundo. Trata-se do vírus reconhecido, internacionalmente, como WSSV (White Spot Syndrome Virus) ou, no Brasil, vírus da Síndrome da Mancha Branca (SMB).

Os impactos negativos econômicos da mancha branca em outros países demonstram que serão necessários esforços adicionais de todo o setor produtivo para que os resultados de rentabilidade não caiam a patamares piores do que já vividos pela atividade no Estado e no Brasil nas épocas da infestação sistêmica da NIM.

 

Síndrome da Mancha Branca (WSSV): Características, Sintomas e Vias de Transmissão e Dispersão

A síndrome da mancha branca, como é conhecida genericamente o WSSV, apresenta características bem peculiares como a replicação no núcleo das células infectadas, além de afetar os tecidos encontrados no epitélio cuticular, estômago, brânquias, apêndices, entre outras estruturas dos animais afetados. Os níveis de infecção podem ser verificados desde a fase em que os animais se encontram em estágio de pós larvas até a fase adulta, em todo e qualquer tipo de empreendimento e sistema de cultivo em águas doces, estuarinas e marinhas (Nunes, 2016).

Além de apresentar alto poder de virulência, segundo Jimenez (1999), a síndrome pode apresentar sintomas bem característicos como:

Repentina redução do consumo alimentar dos camarões nos viveiros ou tanques de cultivo;
Natação lenta dos animais na superfície e/ou próximo aos taludes nos viveiros ou tanques de cultivo;
Coloração rosada a pardo-avermelhada do corpo dos animais e urópodos avermelhados resultante da expansão dos cromatóforos (Figuras 1 e 2);
Hepatopâncreas necrosado, hemolinfa turva e calcificações brancas de 0,5 a 2 mm sob a cutícula (Figura 3 e 4);
Exoesqueleto ou carapaça amolecida ou solta (Figura 5).

Figuras 1 e 2. Diferença de coloração entre camarão sadio e camarão infectado por mancha branca (© Dr. J. Cuella-Anjel); Urópodos avermelhados – Expansão dos cromatóforos (© Cleber Lemos – Fonte: Seiert e Winckler, 2005).

Figuras 1 e 2. Diferença de coloração entre camarão sadio e camarão infectado por mancha branca (© Dr. J. Cuella-Anjel); Urópodos avermelhados – Expansão dos cromatóforos (© Cleber Lemos – Fonte: Seiert & Winckler, 2005).

Figuras 3,4 e 5. Sintomas macroscópicos característicos da fase aguda da mancha branca em camarões de cultivo © Prof. Dr. Alberto Nunes, 2016.

Figuras 3,4 e 5. Sintomas macroscópicos característicos da fase aguda da mancha branca em camarões de cultivo © Prof. Dr. Alberto Nunes, 2016.

 

Padrões de eventos de mortalidade nos viveiros ou tanques de cultivo:

• 1º evento – 30 dias após o povoamento do viveiro;
• 2º evento – Camarões com peso médio de 3,5-4,0g, independente do tempo de estocagem;
• 3º evento – Camarões com peso médio de 8,0-10,0g, nem sempre ocorre.

Inúmeros estudos apontam que existem, basicamente, duas possibilidades gerais de vias de transmissão do vírus, são elas:

Via de transmissão horizontal: A infecção é repassada para camarões através de agentes abióticos, ou seja, pela água, solo, equipamentos contaminados pelo vírus, etc;
Via de transmissão vertical: É a transmissão do vírus da mãe para o filho, ou seja, de reprodutores para larvas de camarão imediatamente antes e depois da eclosão dos ovos.
As informações da literatura disponível também apontam para diversas formas de dispersão do vírus, que podem ser observadas nas seguintes situações:
Pós larvas ou matrizes contaminadas em movimento de uma larvicultura para outra ou para fazendas de engorda;
Água de captação para o cultivo através do bombeamento de efluentes oriundos de fazendas ou beneficiadoras com “animais vetores” contaminados como insetos aquáticos e crustáceos;
Através de aves que migram de uma fazenda para outra carregando partículas virais no trato digestivo e podem regurgitar o bolo alimentar de camarões infectados e comidos em uma fazenda contaminada;
Através de veículos e/ou humanos que tenham circulado com frequência em outras áreas infectadas.

 

O Cultivo de Camarões e os Eventos de Mortalidade causado pelo WSSV no Ceará

No Ceará, desde 2008, apesar de já ter sido relatada, extraoficialmente, a presença do WSSV em camarões e em águas de alguns estuários cearenses, não eram observados eventos críticos de mortalidade nas fazendas. Entretanto, se considerarmos uma lógica de dispersão do vírus, considerando apenas os eventos críticos de mortalidade, relatamos que a dispersão ocorreu do litoral leste para o litoral oeste do Ceará, com ocorrências isoladas em municípios que ficam longes do litoral. Relatos de altas mortalidades associadas aos sintomas descritos anteriormente nesse artigo já foram confirmados nas principais regiões produtoras de camarão do Ceará que se encontram nos municípios de Aracati, Jaguaruana, Fortim, Beberibe, Paraipaba e Acaraú (Figura 7).

Figura 7. Regiões produtoras de camarão Litopenaeus vannamei no Ceará com registros de ocorrência de eventos de mortalidades causadas por mancha branca.

Figura 7. Regiões produtoras de camarão Litopenaeus vannamei no Ceará com registros de ocorrência de eventos de mortalidades causadas por mancha branca.

 

Há perspectivas e saídas contra esse relevante desafio para o Cultivo de Camarões no Ceará e no Brasil?

Como dito anteriormente, a síndrome da mancha branca vem afetando há tempos, as produções em muitos países por todo o mundo. Essa experiência vivida está oportunizando, através de muitas informações técnicas disponíveis, que o Ceará e o Brasil busquem com mais rapidez os ajustes necessários para tentarmos minimizar os impactos negativos econômicos sobre a atividade e que serão notados e/ou contabilizados, muito provavelmente, apenas nos próximos ciclos de produção, já que algumas fazendas estão despescando e buscando uma visão mais prudente, no ponto de vista tecnológico, em seus próximos povoamentos nas suas unidades de produção.
Basicamente, a experiência vivida nos países nos aponta duas perspectivas exitosas de saídas para o enfrentamento dessa enfermidade, expostas na Tabela 2:

Tabela 2. Estratégias de enfrentamento contra enfermidades virais no cultivo de camarões.

Tabela 2. Estratégias de enfrentamento contra enfermidades virais no cultivo de camarões.

Independente da estratégia e/ou sistema de produção adotado, o produtor deverá buscar aquela saída que consiga, de forma consistente e viável para suas realidades econômicas e ambientais, dar as condições mínimas para efetivar um protocolo operacional que equilibre o ambiente sem estressar o animal do início ao final do cultivo.

No Ceará, também baseado em relatos de experiências exitosas de áreas que estão voltando a produzir no Rio Grande do Norte, começam a se desenvolver ações contra as infestações que mesclam protocolos das duas estratégias acima descritas no presente artigo. Com o objetivo de garantir um ambiente saudável e equilibrado para o cultivo, as fazendas de engorda estão começando a buscar protocolos de produção, adotando estratégias como:

Sistemas bifásicos ou trifásicos de produção;
Controle de qualidade de pós larvas (Figura 6);
Barreiras físicas e sanitárias (Figuras 8 e 9);
Higiene de pessoal e desinfecção de veículos na entrada das fazendas;
Desinfecção e limpeza de petrechos e equipamentos utilizados diretamente em todas as estruturas de cultivo da fazenda;
Filtragem da água de captação e redução das trocas de água: Telas de 300-500 µm na forma de bag net;
Controle de temperatura durante o maior tempo possível do ciclo de engorda em berçários e/ou pré-berçários (Figuras 10).

Figura 6. Controle de qualidade em pós larvas através de teste de estresse osmótico e térmico. © Prof. Dr. Alberto Nunes.

Figura 6. Controle de qualidade em pós larvas através de teste de estresse osmótico e térmico. © Prof. Dr. Alberto Nunes.

Figuras 8 e 9. Barreiras físicas (Anti-caranguejos) e sanitárias (Inativação do vírus com hipoclorito de sódio, Virkon™ (5,0 ppm), Cal virgem, etc.) © Prof. Dr. Alberto Nunes.

Figuras 8 e 9. Barreiras físicas (Anti-caranguejos) e sanitárias (Inativação do vírus com hipoclorito de sódio, Virkon™ (5,0 ppm), Cal virgem, etc.) © Prof. Dr. Alberto Nunes.

Figura 10. Cobertura de berçários e raceways para controle de temperatura e biossegurança. Fazendas Nova Vida & Revesa. © Prof. Dr. Alberto Nunes.

Figura 10. Cobertura de berçários e raceways para controle de temperatura e biossegurança. Fazendas Nova Vida & Revesa. © Prof. Dr. Alberto Nunes.

Além das ações acima descritas, as ações de diagnóstico presuntivo e confirmatório, bem como as boas práticas de manejo em todo o ciclo de produção têm sido difundidas com cada vez mais frequência através de palestras e cursos realizados nas regiões afetadas promovidos pelas Associações de Produtores Locais e Nacional.

Com relação às ações de diagnósticos de enfermidades, apesar da relevância do tema, o Governo e setor produtivo ainda carecem de estrutura necessária para a formatação de uma rede de diagnóstico de enfermidades de baixa, média e alta complexidade. É provável que esse tipo de ação, com as pressões que as enfermidades causam sobre a atitude técnica e responsável de todos os envolvidos, passe a ser mais difundida e fomentada. O diagnóstico prévio do estado sanitário das pós-larvas antes do ciclo de produção e de camarões adultos durante o ciclo de produção, é uma ótima ferramenta para se conseguir avaliar e/ou validar os protocolos de biossegurança adotados das unidades produtoras após o advento das infestações virais.

 

Conclusões

Com base nas informações expostas anteriormente, podemos concluir que a carcinicultura cearense viverá mais uma vez uma pressão negativa significativa com o aparecimento da mancha branca, todavia, as perspectivas nos levam a crer que, a chave do sucesso da retomada da produção não é algo a ser descoberto, e sim, a ser implementado. Caberá aos produtores e toda cadeia produtiva buscar uma melhor integração de modo a não sofrermos tanto como visto em outras épocas e em outros países acometidos por essa enfermidade.

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