Principal Artigos Alimento Vivo Aspectos Nutricionais da Artemia (Artemia sp.) – Novos Horizontes

Aspectos Nutricionais da Artemia (Artemia sp.) – Novos Horizontes

Aspectos Nutricionais da Artemia (Artemia sp.) – Novos Horizontes
0

Rogério Taygra Vasconcelos Fernandes¹ & Alex Augusto Gonçalves²*
Programa de Pós-Graduação em Ciência Animal (PPGCAN), Departamento de Ciências Animais (DCAN), Universidade Federal Rural do Semi-Árido (UFERSA).
¹ Doutorando (PPGCA/UFERSA) – rogerio.taygra@ufersa.edu.br
² Professor Tecnologia, Inspeção e Controle de Qualidade do Pescado (PPGCA/UFERSA), Chefe do Laboratório de Tecnologia e Controle de Qualidade do Pescado (LAPESC/DCAN/UFERSA)
*alaugo@gmail.com

O crescimento exponencial da população mundial nas últimas décadas desencadeou uma busca frenética por fontes de alimentos alternativos capazes de suprir a nova demanda. Nesse contexto, a proteína de origem animal pode suprir com maior facilidade os requerimentos proteicos de animais e seres humanos do que a proteína de origem vegetal. No entanto, o consumo de farinhas de carne, peixe, sangue ou vísceras enfrenta barreiras sanitárias para a sua utilização na alimentação animal, enquanto o consumo de produtos cárneos por seres humanos pode estar associado a diversos fatores, como poder aquisitivo da população, restrições ideológicas ou religiosas, riscos cardiovasculares, carga microbiana, dentre outros.

A artemia, um crustáceo que habita ambientes salinos, em seus diferentes estágios – cistos, náuplios recém-eclodidos e biomassa da artêmia adulta – livre de contaminação por microrganismos patógenos e amplamente distribuídos em todo mundo,

pode ser uma alternativa como fonte de alimento proteico tanto para organismos aquáticos, como para os humanos.

Figura 1. Molecular Identification

Figura 1. http://info.nthrys.org/2013/08/molecular-identification-of.html.

 

Propriedades Nutricionais

Os estágios da artemia comumente destinados à alimentação são os naúplios recém-eclodidos, fase de desenvolvimento ou adulta. Pesquisadores fazem uso destas fontes para a realização de análises químico-energéticas, onde os resultados (Tabela 1) podem integrar tabelas de composição de alimentos, auxiliando a formulação de rações e dietas alternativas. O perfil de aminoácidos existente no farelo da artemia vem sendo determinado em diversas regiões do mundo (Aragão et al., 2004) como tentativa de subsidiar formulações de dietas à base deste alimento ou a produção de suplementos aminoacídicos. García et al. (2011) comparou a composição centesimal (Tabela 2) de náuplios recém-eclodidos e suas diferentes preparações dos cistos após 85 minutos de hidratação durante o tempo de descapsulação (cistos frescos) ou reidratação antes de serem oferecidos às larvas (água salgada e cistos secos).

Tabela 1. Propriedades nutricionais da artemia.

Tabela 1. Propriedades nutricionais da artemia.

Tabela 2. Composição centesimal de naupilii e cisto de artemia.

Tabela 2. Composição centesimal de naupilii e cisto de artemia.

 

Uso na aquicultura

A artemia é uma excelente fonte de alimento vivo na larvicultura de crustáceos e peixes. Ambos náuplios e adultos têm a grande vantagem de satisfazer as exigências nutricionais de diversas espécies aquáticas (Sorgeloos, 1980; Léger et al.,1986; Sorgeloos et al., 1998, 2001). Comparado com náuplios recém-eclodidos, o valor nutricional da artemia adulta é superior, uma vez que têm maior teor de proteína e são mais ricas em aminoácidos essenciais (Bengtson et al., 1991; Naessens et al., 1997; Lim et al., 2001; Anh et al., 2009). Além disso, a biomassa de artemia parece conter substâncias hormonais e tem sido incluída em dietas de maturação que fornecem benefícios adicionais, tais como indução e reforço da maturação sexual, e aumento das taxas de fertilização em peixes e camarões (Naessens et al., 1997; Wouter et al., 2002; Gandy et al., 2007; Anh et al., 2009).

No entanto, o valor nutricional da biomassa de artemia não é constante, mas varia geográfica e temporalmente (Léger et al., 1986; Sorgeloos et al., 1998). No entanto, atualmente, um gargalo na criação de peixes é a deficiência natural em ácidos graxos essenciais (EFA) de presas vivas, como rotíferos e náuplios de artemia, comumente utilizados na larvicultura de peixes e crustáceos marinhos (Conceição et al., 2010; Boglino et al., 2012). No cultivo de camarões a artemia é geralmente utilizada para a alimentação dos estágios de larva e pós-larva, onde naúplios recém-eclodidos são oferecidos no início da fase de mísis e zoea (Van Stappen, 1996), sendo também fonte de alimento para peixes. A sua fase adulta pode ser utilizada viva ou congelada para espécies de peixes ornamentais, enquanto os cistos são incubados para serem fornecidos sob a forma de náuplios. A literatura não reporta alterações no valor nutricional existente entre estas duas formas de utilização da fase adulta, no entanto a inclusão destes organismos vivos dentro de aquários ou tanques diminui o nível de partículas poluidoras flutuantes e estimula o comportamento predatório dos peixes (Ortega, 2000).

 

Uso na nutrição humana

A proteína de origem animal pode suprir com maior facilidade os requerimentos proteicos de seres humanos do que a proteína de origem vegetal. Este fato pode ser explicado pela alta digestibilidade da proteína encontrada em produtos cárneos quando comparada com vegetais e cereais, pois normalmente a proteína constituinte destes últimos alimentos pode estar acompanhada de polissacarídeos-não-amiláceos, fatores antinutricionais ou fibra de baixa qualidade, que aumentam a velocidade da digestão pelo trato gastrointestinal tornando este e outros nutrientes menos disponíveis (Arruda et al., 2008). Por outro lado, o consumo de carne pode estar associado a diversos fatores como: poder aquisitivo da população, restrições ideológicas ou religiosas, riscos cardiovasculares, carga microbiana dentre outros. A busca por uma proteína de qualidade e de baixo custo motiva a pesquisa por fontes alternativas deste nutriente. Desta forma, a artemia surge como uma potencial fonte exclusiva de proteína (Tabelas 1 e 2) ou como uma fonte de suplementação aminoacídica (Tabela 1), já que os aminoácidos não sintetizados pelo organismo humano (Tabela 3) podem ser encontrados neste crustáceo de ampla distribuição mundial.

Tabela 3. Necessidades de aminoácidos (mg/kg/dia) para diferentes idades propostas.

Tabela 3. Necessidades de aminoácidos (mg/kg/dia) para diferentes idades propostas.

Outro fator a ser considerado a respeito da inclusão de artemia na alimentação humana refere-se à presença de vitaminas antioxidantes em sua composição. As recomendações de ingestão dietética de referência são estabelecidas para a prevenção de deficiências nutricionais, não se levando em consideração a possibilidade de redução dos riscos de desenvolvimento de doenças crônicas. A melhora de defesa antioxidante pode não ser capaz de proteger completamente o indivíduo, podendo provocar alterações no sistema imunomodulatório que levam a inflamação e alterações de tecidos (Peluzio et al., 2010). Stults (1974) avaliou cistos de artemia e encontrou altos níveis de Tiamina (7,13 μg/g), Niacina (108,68 μg/g), Riboflavina (23,15 μg/g) e Retinol (10,48 μg/g) ambas vitaminas ou compostos precursores capazes de desencadear uma reação de antioxidação no organismo humano.

Historicamente surgem evidências que a artemia já foi parte integrante da alimentação de nativos da Líbia e tribos de índios na Califórnia (Asem, 2008), verificou-se também no Vietnã que as pessoas que cultivavam o crustáceo incorporaram a biomassa em sua dieta habitual (Mot, 1984), e na Tailândia receitas orientais contendo a biomassa da artemia tiveram grande aceitação pelos consumidores locais (Zarei et al., 2006). Embora existam informações nutricionais sobre a artemia, muito pouco foi estudado sobre a sua utilização para a nutrição humana, devendo ainda haver mais pesquisas que fundamentem a sua viabilidade para esta espécie.

© Neli Martín

© Neli Martín

 

Considerações finais

A artemia é um crustáceo que possui fundamental importância biológica em seu habitat por ser capaz de reduzir partículas poluidoras flutuantes, sobreviver em altas salinidades e desencadear comportamento predatório em organismos aquáticos como alimento vivo, além de desempenhar importante papel em pesquisas nas áreas de biologia molecular, ecologia, toxicologia, fisiologia e genética.

A presença de nutrientes indispensáveis para o metabolismo basal de animais e humanos, como aminoácidos, minerais e vitaminas, possibilita a sua utilização como uma fonte de alimento para estas espécies. Em um futuro próximo, sugere-se pesquisas focadas nesta matéria prima, que podem resultar em políticas de incentivo ao seu emprego como fonte proteica para humanos em países em desenvolvimento.

 

Referências Bibliográficas

Aghakhanian, F.; Zarei, A.; Lotfollahia H.; Eila, N.. Apparent and true amino acid digestibility of artemia meal in broiler chicks. South African Journal of Animal Science, 39(2): 158-162, 2009.
Anh, N.T.N.; Van Hoa, N.; Van Stappen, G.; Sorgeloos, P. E_ ect of di_ erent supplemental feeds on proximate composition and Artemia biomass production in salt ponds. Aquaculture, 286: 217-225, 2009.
Aragão, C.; Conceição, L.E.C.; Danis, M.T.; Fyhn, H.J. Amino acid pools of rotifers and artemia under di_ erent conditions: nutritional implication for _ sh larvae. Aquaculture, 234: 429-445, 2004.
Arruda A.M.V.; Fernandes R.T.V.; Silva, J.M.; Lopes, D.C. Avaliação morfo-histológica da mucosa intestinal de coelhos alimentados com diferentes níveis e fontes de _ bra. Revista Caatinga, 21(2): 01-11. 2008.
Asem, A. Historical record on brine shrimp Artemia more than one thousand years ago from Urmia Lake, Iran. Journal of Biological Research. _ essaloniki, 9: 113- 114, 2008.
Bengtson, D.A.; Léger, P.; Sorgeloos, P. Use of Artemia as a food source for aquaculture. In: Browne, R.A., Sorgeloos, P., Trotman, C.N.A. (Eds.), Artemia Biology. CRC Press, Boca Raton, Florida, pp. 255-285, 1991.
Boglino, A.; Darias, M.J.; Ortiz-Delgado, J.B.; Özcan, F.; Estévez, A.; Andree, K.B.; Hontoria, F.; Sarasquete, C.; Gisbert, E. Commercial products for Artemia enrichment a_ ect growth performance, digestive system maturation, ossi_ cation and incidence of skeletal deformities in Senegalese sole (Solea senegalensis) larvae. Aquaculture, 324-325: 290-302, 2012.
Conceição, L.E.C.; Yúfera, M.; Makridis, P.; Morais, S.; Dinis, M.T. Review paper: Live feeds for early stages of _ sh rearing. Aquaculture Research, 41: 613-640, 2010.
FAO/WHO/UNU. Food and Agriculture Organization, World Health Organization, United Nations University. Energy and protein requirements. Who Tech. Resp. Ser., 724: 1-206, 1985.
Gandy, R.L.; Samocha, T.M.; Masser, M.P.; Fox, J.M.; Ali, S.A.M.; Gatlin, D.M.; Speed, M. _ e e_ ect of unilateral eyestalk ablation and diet on the reproductive performance of wild-caught Farfantepenaeus aztecus (Ives, 1891) using a closed recirculating maturation system. Aquac. Res., 38: 580-587, 2007.
García, V.; Celada, J.D.; Carral, J.M.; González, R.; González, A,; Sáez-Royuela, M. A comparative study of di_ erent preparations of decapsulated Artemia cysts as food for tench (Tinca tinca L.) larvae. Animal Feed Science and Technology, 170: 72-77, 2011.
Léger, P.; Bengtson, D.A.; Simpson, K.L.; Sorgeloos, P. _ e use and nutritional value of Artemia as a food source. Oceanogr. Mar. Biol., 24: 521-623, 1986.
Lim, L.C.; Soh, A.; Dhert, P., Sorgeloos, P. Production and application of on grown artemia in freshwater ornamental _ sh farm. Aquac. Econ. Manag., 5: 211-228, 2001.
Mot, R. Artemia: _ e super protein food (in _ ai). Housewife Magazine, 8 (144): 98-102, 1984.
Naessens, E.; Lavens, P.; Gomez, L.; Browdy, C.L.; McGovern-Hopkins, K.; Spencer, A.W.; Kawahigashi, D.; Sorgeloos, P. Maturation performance of Penaeus vannamei co-fed Artemia biomass preparations. Aquaculture, 155: 87-101, 1997.
Ortega, A.G. Valor nutricional de los quistes de Artemia y su uso como fuente de proteína em dietas artificiales para larvas de peces. In: Cruz-Suárez, L.E.; Ricque-Marie, D.; Tapia-Salazar, M. (Eds). Avances em nutrición acuícola. Yucatán: Mérida, p.287-299, 2000.
Peluzio, M.C.G.; Rosa, D.D.; Oliveira, V.P. Alimentos funcionais – componentes bioativos e efeitos _ siológicos. Rio de Janeiro: Editora Rubio, 2010, p.37-55.
Sorgeloos, P. _ e use of brine shrimp Artemia in aquaculture. In: Persoone, G., Sorgeloos, P., Roels, O., Jaspers, E. (Eds.), _ e Brine Shrimp Artemia. Ecology, Culturing, Use in Aquaculture, vol. 3. Universa Press,Wetteren, Belgium, pp. 25–45, 1980.
Sorgeloos, P.; Coutteau, P.; Dhert, P.; Merchie, G.; Lavens, P. Use of brine shrimp, Artemia spp., in larval crustacean nutrition: a review. Rev. Fish. Sci., 6: 55-68, 1998.
Sorgeloos, P.; Dhert, P.; Candreva, P. Use of the brine shrimp, Artemia spp., in marine _ sh larviculture. Aquaculture, 200: 147-159, 2001.
Stults, V.J. _ esis, Michigan State University, East Lansing, U.S.A., 110p., 1974.
Van Stappen, G. Introduction, biology and ecology of Artemia. In: Lavens, P.; Sorgeloos, P. (Eds). Manual on the Production and Use of Live Food for Aquaculture. FAO Fisheries Technical Paper, 295p., 1996.
Wouter, R.; Zambrano, B.; Espin, M.; Calderon, J.; Laven, P.; Sorgeloos, P. Experimental broodstock diets as partial fresh food substitutes in white shrimp Litopenaeus vannamei B. Aquac. Nutr., 8: 249-256, 2002.
Zarei, A.; Shivazad, M; Mirhadi, A. Use of Artemia meal as a protein supplement in broiler diet. South African Journal of Animal Science, 5(2): 142-148, 2006.

tags: