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A criação de rãs nos meses de outono e inverno

A criação de rãs nos meses de outono e inverno
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Inicialmente parabenizo os idealizadores do Portal Aquaculture Brasil e desejo sucesso a todos os envolvidos nesta iniciativa e aos leitores em geral. Por meio desta coluna estarei desenvolvendo temas de relevância para a produção comercial de rãs, sempre no intuito de informar e fomentar uma boa discussão com os atores da cadeia ranícola, sobre as mais diversas questões relacionadas ao universo da ranicultura. Cabe ressaltar que, a inauguração desta coluna está em perfeita sintonia com a inauguração do Portal da Rede de Ranicultura, ocorrida em 19 de maio de 2016, e que tem, entre outros objetivos, a missão de estreitar relações entre produtores, técnicos, pesquisadores, empresários em geral, entre outros que atuam diretamente nesta cadeia produtiva, originalmente brasileira. Para acessá-lo basta clicar neste link.

Gostaria de deixá-los à vontade para críticas, dúvidas e sugestões sobre nossas atividades. Escolhi como tema inicial a Criação de rãs nos meses de outono e inverno, justamente por estarmos passando por este período e por se tratar de um momento delicado no manejo dos animais.

A ranicultura pode ser definida como a atividade de criação de rãs, cujo objetivo principal é a produção de animais para obtenção de carne. É sabido que as rãs são anfíbios e, portanto, seres pecilotérmicos (ectotérmicos). Dessa forma, com a chegada do outono até o final do inverno, temos uma diminuição sensível da temperatura e da quantidade de horas-luz por dia, notadamente mais marcantes nas Regiões Sul e Sudeste Brasileiras. Essas características produzem uma diminuição no metabolismo dos animais.

Por isso é certo dizer que as rãs não se reproduzem nesta época, reduzem seu ritmo alimentar e, consequentemente, o ciclo de produção tende a se prolongar. Analisando fase por fase do desenvolvimento dos animais podemos dizer que: os reprodutores passam por um período de descanso reprodutivo, comem menos, tendem a ficar mais letárgicos e o canto característico da espécie (rã-touro), produzido pelos machos, não é ouvido; os girinos, por sua vez, apresentam maior crescimento e retém o processo da metamorfose, pois as temperaturas frias e a diminuição da exposição à luz estimulam mais a liberação da Somatotropina (GH) que os hormônios tireoidianos; os imagos ou rãs jovens, assim como as rãs adultas, também se interessam menos pelos alimentos, crescendo num ritmo mais lento que aquele comum às estações da primavera e do verão.

Diante do exposto cabe uma pergunta: “Não há como reverter esse quadro quando estamos a criar rãs nas regiões mais frias do país?” A resposta é simples: “Sim, porém deve-se avaliar sempre a questão do custo-benefício!”

A reprodução pode ser totalmente controlada, pois o ambiente de mantença e acasalamento dos animais pode mimetizar as condições de primavera/verão, consideradas ideais. Controla-se, principalmente, a temperatura, o fotoperíodo (luminosidade), a umidade relativa do ar e a pluviosidade (regime de chuvas). A girinagem ou larvicultura, pode ser realizada em tanques de menor profundidade e com menores taxas de renovação de água, de modo a garantir rápido aquecimento pela manhã e menor perda de temperatura. O aquecimento da água nem sempre é viável, como a utilização de aquecedores com resistência elétrica, que possuem custo operacional muito elevado. No entanto, novas tecnologias podem viabilizar um controle mais efetivo da temperatura da água. Cabe lembrar que, ainda que ocorra um atraso no processo metamórfico os girinos continuam crescendo, principalmente em temperaturas na faixa de 15 a 21°C, pois o apetite deles ainda está presente e seus corpos estão mais propensos ao crescimento, como anteriormente explicado. Outro aspecto a ser levado em consideração é o fato de podermos instalar com sucesso um tanque reservatório de girinos, que será fundamental para o planejamento produtivo do ranário, uma vez que pode-se promover a retenção da metamorfose. Assim, dá-se margem a uma importante discussão: É mais interessante reproduzir um ambiente favorável à reprodução no outono-inverno ou investir em maior quantidade de tanques de girinos e manejá-los de modo que se obtenham imagos o ano todo? Ambas as alternativas são viáveis e devem ser analisadas com particularidade.

Figura 1 - Girino de rã-touro, denominado de “girino de inverno”, em processo de crescimento e desenvolvimento - Aquaculture Brasil

Figura 1. Girino de rã-touro, denominado de “girino de inverno”, em processo de crescimento e desenvolvimento.

A engorda, desacelera e assim como a girinagem, exige maior atenção, pois com a diminuição do metabolismo diminui, também, a eficiência do sistema imunológico, permitindo a ação de agentes infecciosos oportunistas, principalmente fungos (girinos e rãs) e bactérias (rãs). O manejo preventivo dos meses anteriores, pautado nas boas práticas de manejo, é fundamental para que passemos por esse período sem perdas substanciais. O controle da temperatura dos galpões de engorda também pode ser realizado. Algumas estruturas são construídas sob estufas agrícolas com cortinas plásticas laterais, auxiliando neste processo de controle.

Estudar é preciso! Quanto maior é o conhecimento sobre os aspectos da biologia e fisiologia dos animais, suas instalações e seu manejo, maiores são as chances de sucesso. Ao invés de inimigo o ambiente passa a aliado.

Saudações ranícolas!