Principal Entrevistas Cláudia Ehlers Kerber e Pedro Antônio dos Santos
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Cláudia Ehlers Kerber e Pedro Antônio dos Santos

Cláudia Ehlers Kerber e Pedro Antônio dos Santos
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Esta semana a entrevista é em dose dupla. Isto porque conversamos com os empresários Cláudia Ehlers Kerber e Pedro Antônio dos Santos, proprietários da Redemar Alevinos, localizada em Ilhabela (SP). Cláudia é Médica Veterinária formada pela USP e Pedro trabalha com maricultura há quase 20 anos. Ambos têm especialização em piscicultura marinha pelo Seafdec (Southeast Aquaculture and Fisheries Development Center). Dos esforços destes dois abnegados resultaram as primeiras desovas de garoupa-verdadeira (Epinephelus marginatus) obtidas nas Américas, em 2010. Um fato histórico e simbólico para a piscicultura marinha brasileira.

 

AQUACULTURE BRASIL: O que motivou você e o Pedro a investirem na Piscicultura Marinha?
Cláudia e Pedro: Primeiramente a falta de pescado no mercado e a deterioração do ambiente marinho afetado também pela pesca. Depois a paixão por espécies ameaçadas, como é o caso da garoupa. Percebemos que a aquicultura poderia ser uma importante ferramenta de preservação ambiental destas espécies.

 

AQUACULTURE BRASIL: Conte-nos um pouco sobre a estrutura da Redemar Alevinos.
Cláudia e Pedro: Contamos hoje com uma estrutura de 7 tanques de concreto armado e 10 tanques de vinil totalizando cerca de 2.000 metros quadrados dedicados à atividade. Este espaço abriga um laboratório, setor de alimento vivo, tanque dos reprodutores em sistema de recirculação, setor de larvicultura e de alevinagem.

 

AQUACULTURE BRASIL: Vocês foram responsáveis pela primeira desova de garoupa-verdadeira (Epinephelus marginatus) nas Américas. No primeiro ano, apenas um juvenil sobreviveu. Já no final do segundo ano, sobraram três peixes! Foi isto mesmo? Neste ponto, geralmente quem é da iniciativa privada abandona o que está fazendo e parte para outra. O que levou vocês a terem tanta perseverança e a continuarem (com muita garra) na área da piscicultura marinha? Os resultados dos anos posteriores foram melhores?
Cláudia e Pedro:

Aquelas três primeiras garoupas estão conosco até hoje. Já em idade reprodutiva. Possuir um plantel nascido em cativeiro é um importante avanço já que estas garoupas são mais mansas e perfeitamente adaptadas a rotina dos tanques.

Temos tido resultados instáveis na produção de alevinos de garoupas e praticamente toda a produção tem seguido para Institutos de Pesquisa sendo insuficiente para suprir a demanda de produtores. A boa notícia é que temos melhorado os protocolos ano a ano. A gente se mantém na atividade porque acredita no futuro dela e porque nossos esforços são sim recompensados. Não estamos falando de retorno financeiro obviamente, mas de satisfação pessoal.

 

AQUACULTURE BRASIL: Até alcançar os primeiros resultados positivos, foram anos de aprendizado, certo? Quais foram os principais entraves encontrados nos primeiros anos da Redemar Alevinos?
Cláudia e Pedro: O primeiro grande entrave, nos idos de 2006, foi a reprodução da garoupa. Era preciso transformar as fêmeas em machos (elas são hermafroditas), depois coletar o sêmen e congelar. Aguardar a maturação das fêmeas e depois induzi-las à desova. Dormíamos no laboratório monitorando o desenvolvimento dos ovários a cada 30 minutos até o momento da extrusão. Tempos difíceis.
Foi penoso também lidar com a questão da sanidade. Até estabelecermos protocolos seguros e ambientalmente amigáveis, foram muitos anos. A aplicação da recirculação facilitou muito o controle de parasitas e a manutenção da qualidade da água.
O grande entrave da atualidade é a dificuldade de estabelecer um protocolo para produção de alevinos de garoupa.

Embora tenhamos visitado diversos países asiáticos produtores, nossa garoupa é diferente da garoupa asiática e não é possível transpor os protocolos. Temos testado exaustivamente diversas variáveis relacionadas à larvicultura e após mais de 50 realizadas ao longo destes anos, para 2016 estamos muito animados na expectativa de sucesso.

AQUACULTURE BRASIL: Valeu a pena ter feito um treinamento na Ásia? Vocês poderiam falar um pouco sobre como foi esta viagem e a experiência adquirida? Sem os cursos práticos que fizeram, vocês conseguiriam ter tido êxito nas desovas e larvicultura da E. marginatus?
Cláudia e Pedro: Sempre vale a pena visitar países e fazer amigos de cultura tão diferente. Isso nos transforma. Difícil dizer se teríamos tido êxito ou não sem este aprendizado. Visitamos muitas fazendas em países cujas realidades são diferentes da nossa. O que é certo, é que mesmo que não possamos “copiar” o que eles fazem, ampliamos enormemente as alternativas para responder às nossas próprias dificuldades.

 

AQUACULTURE BRASIL: Além das garoupas, hoje vocês também estão entre os poucos laboratórios no Brasil que produzem regularmente juvenis de bijupirá (Rachycentron canadum) para comercialização. Mesmo sendo um dos únicos e depois de vários anos, a demanda ainda é pequena, certo? Porque vem demorando tanto para as fazendas marinhas de piscicultura se estabelecerem?
Cláudia e Pedro: Temos capacidade de produção de mais de 200.000 alevinos de bijupirá/ano na configuração atual do laboratório. Nos últimos anos a demanda vem diminuindo ao invés de aumentar e não chega a 5% da nossa capacidade produtiva. As fazendas de engorda enfrentam muitas dificuldades que vão da questão sanitária à nutrição e com os riscos inerentes da atividade exercida no mar. No entanto, vejo que eles também são incrivelmente persistentes e é certo que estamos em um patamar de tecnologia bem melhor do que aquele de alguns anos atrás.

Quem iniciar agora já vai usufruir de avanços que foram duramente conquistados por estes abnegados produtores.

AQUACULTURE BRASIL: Como está a piscicultura marinha no litoral do Estado de São Paulo?
Cláudia e Pedro: Acredito que a produção para 2016 não passa de 150 toneladas de bijupirá distribuída em menos de uma dezena de criadores.

 

AQUACULTURE BRASIL: O bijupirá e, consequentemente/diretamente a piscicultura marinha receberam um expressivo apoio do Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA) há poucos anos atrás. Mesmo assim, a produção ainda não “deslanchou”. Vocês sentiram que faltou um pouco de apoio governamental e incentivos para os laboratórios privados?
Cláudia e Pedro: Não sou qualificada para dizer por que o investimento do MPA em laboratórios públicos ou na rede nacional de peixes marinhos (REPIMAR) não conseguiu fazer com que a atividade deslanchasse. Mas o que foi compilado da atividade da REPIMAR é um material rico e de grande valor para o setor.

Sim, com certeza falta apoio. Sentimos que fazemos papel de Estado ao fazermos pesquisa e também fomento e ainda ao nos dedicarmos como empreendedores privados a uma atividade de interesse nacional sem perspectiva de lucro.

AQUACULTURE BRASIL: Com tantas áreas estuarinas propícias para o cultivo de peixes marinhos, incluindo centenas de hectares construídos de fazendas de camarão que poderiam ser uma alternativa para a piscicultura marinha, neste espectro, a aposta no bijupirá foi um erro? Não seria interessante o Brasil dispor de tecnologias de cultivo para espécies estuarinas, que se adaptem a diferentes condições de salinidade como os serranídeos, robalos, etc.?
Cláudia e Pedro: É difícil imaginar que uma espécie pelágica como o bijupirá se desenvolveria plenamente em um viveiro com pouca troca de água, agua turva e pouca profundidade. Mas a criação de bijupirás em viveiros na Ásia é comum, talvez o manejo tenha que ser aprimorado.

A aposta no bijupirá não foi um erro. Pelo contrário, oferecendo ao animal a nutrição e o ambiente adequado, ele é extremamente resistente e tem uma capacidade de crescimento impressionante. Carne branca de primeira, excelente rendimento de carcaça e com grande aptidão para aquicultura. Foi uma ótima aposta.

Não há dúvidas que precisamos também de espécies que se adaptem ao ambiente estuarino e que possam oferecer uma alternativa a carcinicultura. Temos várias espécies incluindo serranídeos e o robalo sendo este último motivo de pesquisas realizadas em diferentes centros do país que apontaram para um crescimento tímido da espécie em cativeiro. Temos convicção que este resultado deve ser reavaliado em novas condições.

 

AQUACULTURE BRASIL: Quais são os peixes marinhos atualmente produzidos pela Redemar Alevinos? Quais são as duas ou três espécies que representam apostas de vocês para o futuro da piscicultura marinha no Brasil?
Cláudia e Pedro: Atualmente na Redemar temos Bijupirás, Garoupas e o Badejo Quadrado (Sirigado). Depois de dominada a larvicultura dos serranídeos poderemos pensar em desenvolver larvicultura para outras espécies do mesmo grupo.

 

AQUACULTURE BRASIL: Para finalizar, vocês podem nos contar quais são os planos futuros da Redemar Alevinos e dos seus sócios? Vêm novidades por aí?
Cláudia e Pedro: Olha, todo ano tem novidade. Para o final de 2016 imaginamos que nosso novo protocolo de larvicultura de garoupas vai finalmente deslanchar. Obtendo sucesso na produção de garoupas de imediato vamos iniciar o trabalho com novas espécies de serranídeos de grande potencial para aquicultura.

 

Visite o site da Redemar alevinos: redemaralevinos.com.br
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