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Breve histórico das linhagens genéticas de camarões marinhos

Breve histórico das linhagens genéticas de camarões marinhos
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A América Latina sempre foi uns dos bordéis principais do mundo desenvolvido, e na aquicultura não foi diferente. Nunca tivemos leis ambientais claras nem políticos sérios. O Brasil pode ter sido a exceção, nem tanto pela seriedade dos políticos e sim pelas normas extremistas das instituições de conservação, que conseguem frear a aquicultura, mas não o desmatamento da Amazônia. Os gringos invadiram os mangues equatorianos, os fiordes chilenos, países pobres centro-americanos, desenvolvendo indústrias fortes. Não estou levando em consideração se foi bom ou ruim. Toda esta introdução foi para ressaltar que a partir de países europeus e dos EUA chegamos às tecnologias existentes hoje em nossas terras.

No caso da carcinicultura marinha, depois do crescimento das áreas de cultivo, surgiu a tecnologia de produção das pós-larvas, a indústria do processamento, insumos para rações, alimentos micronizados para larvas, equipamentos diversos para monitoramento e controle da qualidade da água, antibióticos, desinfetantes, probióticos, etc.

Agora vem a pergunta direta: qual foi o produto que não emplacou na carcinicultura latino americana?
Resposta direta: as linhagens SPF (Specific Pathogen Free).

O insucesso das introduções das linhagens SPF não foi por falta de tentativa frente a um mercado gigantesco de pós-larvas. Com a bandeira do controle sanitário, tentaram introduzir as benditas linhagens a todo custo. O que não imaginaram é que em um País do terceiro mundo, um grupo de técnicos tentando sobreviver aos inúmeros problemas virais teria êxito trabalhando em outro sentido, na prática, e sem muita academia por de trás: convivendo com os patógenos! Desafiando populações com fortíssimas intensidades de seleção, controlando endogamia tanto com marcadores moleculares como com a lógica do cruzamento de linhagens. Neste sentido, as linhas SPF introduzidas em inúmeros testes foram as responsáveis por incorporar genes de crescimento nas linhas locais.

O México desenvolveu todo um programa de controle através de comitês sanitários, produzindo náuplios sobre estritas normas de biossegurança na produção dos reprodutores. Recentemente não resistiu à introdução das linhagens equatorianas, muito bem comercializadas por uma empresa texana. Uma das principais empresas latino-americanas da área de produção de pós-larvas e genética do melhoramento localizada no Brasil já está mudando sua estratégia, ou, ao menos, perdendo força a estratégia SPF para os imensuráveis estuários do nordeste brasileiro, abrindo novas parcerias com a proposta de produzir linhagens locais com o levantamento de reprodutores em condições de campo.

Uma serie de conceitos ficaram claros neste contexto:
1) Linhagens SPF para áreas extremamente limpas ou para cultivos intensivos e superintensivos controlados, onde tiveram sucesso em países asiáticos com um pacote completo de introdução do Litopenaeus vannamei. Podemos acrescentar também no âmbito do cultivo heterotrófico em todo o planeta, com projetos em Canadá, países europeus e nos EUA.
2) Não existem linhagens resistentes específicas para determinados patógenos (SPR), e o que parece existir são populações mais adaptadas e tolerantes a ambientes onde as populações enfrentam cotidianamente uma série de microrganismos oportunistas em função da variabilidade ambiental.
3) Como frequentemente brincava com capitão Osni, nas inúmeras madrugadas que passamos despescando pós-larvas ou retirando fêmeas copuladas no Laboratório de Camarões Marinhos da UFSC na década dos anos 90: “Magrão, camarão não é avião!”. Ou seja: a genética também vai de carona de como manejamos nosso cultivo, seja ele superintensivo controlado ou em condições de campo. Ambos requerem destreza técnica do produtor. Nos sistemas superintensivos dependemos também das necessidades de equipamentos para o controle da qualidade da água com os custos e riscos que isso representa. No caso dos sistemas a campo dependemos em parte da mãe natureza. Suas linhagens tolerantes não têm o que fazer frente a eventos climáticos extremamente desestabilizadores que afetem drasticamente as caraterísticas dos estuários, aumentando violentamente a carga microbiana dos mesmos, assim como o aumento excessivo do estresse dos organismos cultivados.

Conclusões finais
• Os milhões de hectares de cultivo de camarão marinho na América Latina não serão substituídos por cultivos intensivos ou reconstruídos por cultivos heterotróficos superintensivos povoados com larvas SPF;
• Ambas as estratégias terão seu mercado próprio com um absoluto domínio atual das linhas tolerantes;
• A indústria aquícola latino-americana está se adaptando e desenvolvendo tecnologia local com técnicos formados nas universidades, nas empresas e nos centros de pesquisa regionais. Não é de hoje que Equador exporta técnicos para o mundo todo.

E o Brasil? Será que um dia vai ver com bons olhos a perspectiva de testar as linhagens tolerantes já introduzidas no México? Até como uma forma de introduzir diversidade que nunca é muita e que se perde permanentemente através do tempo. Gastamos bastante dinheiro nas redes Recarcine e Recarcina assim como recursos do FINEP a fundo perdido para pesquisas no âmbito de empresas privadas na época das vacas gordas, porém, acho que ainda valeria a pena, como projeto de pesquisa, tirar o último leitinho da vaca magra.