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Sergio Tamassia

Sergio Tamassia
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O nosso segundo entrevistado é bastante conhecido na aquicultura brasileira e atualmente, curta sua aposentadoria ao lado da família. Estamos falando do biólogo Sergio Tamassia.

Tamassia é biólogo formado pela USP e também graduado em administração de empresas (UnC/Caçador). Cursou mestrado na Auburn University (EUA) e doutorado no CAUNESP, em Jaboticabal. Foi pesquisador do Instituto Oceanográfico da USP e, nos últimos 30 anos, pesquisador da Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (EPAGRI), atuando na Estação Experimental de Caçador e na Estação Experimental de Ituporanga, onde “pendurou as chuteiras”.

 

AQUACULTURE BRASIL: Você trabalhou 30 anos na EPAGRI, instituição referência no País em Pesquisa Agropecuária e, em especial, em Extensão Rural. Por que a extensão rural/aquícola funciona tão bem na EPAGRI? Existe uma fórmula a ser emprega por outras empresas estaduais de extensão rural e pesqueira?
Sergio Tamassia:

Em minha opinião, a Extensão Rural da EPAGRI teve sucesso em várias áreas/culturas em função da disponibilidade de técnicos junto/próximo aos produtores de maneira “permanente”.

Pelo fato de residirem nas localidades/municípios que atendiam facilitava a comunicação e interação com os produtores assistidos. Também não se pode desconsiderar que os técnicos que atuavam ao nível de campo tinham conhecimento no mínimo satisfatórios em relação à área/cultura para as quais davam assistência. Também existia uma proximidade dos temas das pesquisas com as necessidades e demandas do campo. Outro fator muito importante para o sucesso da Extensão Rural em SC foi o sistema de avaliação dos resultados, que ao invés de estar baseado preferencial ou exclusivamente no numero de produtores atendidos ou ao número de CPFs registrados, também tinha muita importância a evolução da produção, da produtividade ou de outros indicadores que mostrassem avanços ou problemas das áreas/culturas trabalhadas. Outro fator importante foi a inexistência quase que total de interesses/envolvimentos comerciais dos técnicos como vendedores de insumos ou compradores da produção.

 

AQUACULTURE BRASIL: Existe um distanciamento histórico no Brasil entre a pesquisa desenvolvida nas Universidades/Institutos de Pesquisa e os produtores rurais. A EPAGRI, através de suas ações de extensão, conseguiu minimizar e reduzir este hiato?
Sergio Tamassia: Quando falamos em EPAGRI não devemos esquecer que ela é resultado da união/fusão de várias empresas/organizações estaduais que atuavam voltadas para o setor agrícola. Anteriormente a criação da EPAGRI já existia uma aproximação “informal” entre os técnicos que atuavam nas empresas/organizações, e através dos técnicos da extensão os produtores se aproximavam da pesquisa ou vice-versa.
Adicionalmente o fato da pesquisa agrícola estadual em SC ser descentralizada, com Estações Experimentais em vários pontos do estado e preferencialmente centrada/voltada para áreas/culturas de importância regional, também facilitava a aproximação da pesquisa, da produção e dos produtores rurais.
Com a criação da EPAGRI se formalizou o contato da pesquisa com a extensão, este último o principal elo de ligação do produtor com a pesquisa, unificou as bases de dados e informações que permitiram aos pesquisadores melhorar o conhecimento sobre as realidades locais, uma vez que Santa Catarina possui grande diversidade ambiental e social.

 

AQUACULTURE BRASIL: Você foi um dos responsáveis pela definição, implantação e desenvolvimento do MAVIPI (Modelo Alto Vale do Itajaí de Piscicultura Integrada), um modelo de sucesso para a aquicultura brasileira. Foi tarefa fácil reunir e unificar o discurso entre produtores, técnicos e os órgãos ambientais? Ressalta-se que o policultivo consorciado com suínos é licenciado pela FATMA, órgão ambiental licenciador de SC.
Sergio Tamassia:

O MAVIPI foi estruturado e proposto com participação de muitas pessoas a partir de uma controvérsia ambiental.

Uma das premissas básicas foi a de que nem todos os agricultores podem ser, por exemplo, produtores de arroz, produtores de banana, produtores de maçã, etc. E também nem todos os que eram considerados piscicultores no Alto Vale do Itajaí poderiam atender a legislação ambiental, mas existia um grupo que atendia. Com base nas características deste grupo e informações técnicas, científicas, ecológicas, ambientais foi sistematizado um sistema de produção. Aí foram mais de três anos para que os piscicultores se profissionalizassem, os técnicos fossem treinados, impactos ambientais monitorados, as normas e legislação estadual fossem revistas, ampliadas contemplando e normatizando individualmente vários sistemas/modelos de produção. Com o MAVIPI se enquadrando em um dos modelos, o processo de licenciamento acabou acontecendo e recebendo “nada contra” em um processo judicial que estava em curso. Este episódio ajudou a dar segurança para os técnicos da FATMA nos processos de licenciamento, uma vez que diminuiu a praticamente zero a chance de serem questionados judicialmente com base no princípio da precaução.

 

AQUACULTURE BRASIL: Tamassia, porque os cultivos de carpas, tão tradicionais no Estado de Santa Catarina, onde as carpas lideravam a produção estadual até o início dos anos 2000, foram aos poucos sendo substituídos pelos cultivos de tilápia? O mercado venceu uma espécie talvez melhor adaptada ao frio catarinense?
Sergio Tamassia: Quem sustenta a produção é o consumidor! Apesar do consumo de tilápias estar crescendo na região, uma grande parte do pescado produzido no Alto Vale é exportado para outras regiões, pesque pague e frigoríficos! E estes consumidores estão preferindo a tilápia.

 

AQUACULTURE BRASIL: Falando no clima subtropical, onde podemos incluir os estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul na mesma “problemática” (invernos com crescimento praticamente zero, senão perda de peso nos peixes), a aquicultura catarinense atualmente não crescer tanto quanto outros estados brasileiros deve-se, de fato, ao clima? Ou melhor, o quanto o clima anda deixando para trás o “domínio da aquicultura catarinense em termos de Brasil? Existem outros fatores?
Sergio Tamassia: O desenvolvimento da atividade aquícola depende de inúmeros fatores, sendo o clima um deles e não é limitante e pode ser trabalhado! A aquicultura de águas interiores em Santa Catarina teve o seu desenvolvimento baseado no pequeno produtor! E este produtor tinha a sua disposição um serviço de extensão governamental com conhecimento técnico em relação à produção piscícola! Atualmente a piscicultura de água doce deixou de ser prioridade para a EPAGRI. Assim sendo, os extensionistas exclusivos e com conhecimento em piscicultura que se aposentam não são repostos na mesma proporção. O “mundo muda”, cada vez mais: a) se exige que regras ambientais sejam respeitadas; b) a concorrência aumenta; c) preço atrativo ao consumidor é fator primordial; d) etc. Sem extensão rural pública que auxilie o pequeno piscicultor a se organizar para o mercado e a produção, a condição de sucesso é pequena. Desta forma, os piscicultores que já existiam continuam a produzir e apenas uns poucos novos estão sendo incorporados.

 

AQUACULTURE BRASIL: Não está na hora da piscicultura do Sul do Brasil investir em sistemas intensivos, como por exemplo berçários em estufas, controlando temperatura, amenizando os prejuízos do inverno e quebrando um pouco a sazonalidade da produção?
Sergio Tamassia: Tudo é possível desde que exista tecnologia para tal, que exista assistência técnica contínua e não a tipo vaga-lume e principalmente e mais importante, os custos de produção associados a estes sistemas mantenham a competitividade do produto frente a outros concorrentes e permitam lucro final para o produtor. Como já colocado acima, o inverno é apenas um pequeno fator dentre os inúmeros que interferem na aquicultura especialmente na de água doce! Preocupar-se apenas com um deles, sem analisar a grande parte do contexto é no mínimo arriscado. Em relação ao tema intensificação eu considero muito importante responder a questão tendo como foco o piscicultor, especialmente os pequenos piscicultores: “O que interessa é muito peixe, grande quantidade de peixes ou peixe a preço motivador ao consumidor final e lucro atrativo ao piscicultor?

 

AQUACULTURE BRASIL: Algumas regiões mais frias da China são conhecidas por cultivarem linhagens de tilápia híbridas entre a Oreochromis niloticus e a O. aureus (tilápia azul), mais adaptada ao frio. Santa Catarina já pensou nesta estratégia?
Sergio Tamassia: Não sei te responder esta questão, pois não trabalhei com reprodução de tilápias e pouco contato tive com os produtores de alevinos!

 

AQUACULTURE BRASIL: Quando veremos Santa Catarina cultivando espécies nativas, mais adaptadas ao seu clima? O jundiá é uma primeira iniciativa concreta? Segundo e EPAGRI, a produção deste bagre nativo vem crescendo a cada ano. Hoje já se produz mais jundiás do que as tradicionais trutas da Serra Catarinense. Esta é a aposta?
Sergio Tamassia: Existindo tecnologia e esta disponível ao produtor, qualquer diversificação é potencialmente um fator positivo. No atual estágio da piscicultura catarinense é mais fácil se introduzir e testar novas espécies, pois já se tem implantada uma razoável infraestrutura, como por exemplo, transporte, equipamentos, etc.

 

AQUACULTURE BRASIL: Talvez um dos principais problemas do piscicultor catarinense seja o baixo preço de mercado ofertado, por exemplo, às suas tilápias cultivadas. Hoje, um peixe de 500 g é vendido por algo em torno de R$ 3,60 a R$ 3,80 o quilo. Este mesmo peixe em outras regiões do País tem valor maior. Faltou algum trabalho governamental no sentido de ensinar o produtor a vender melhor o seu produto?
Sergio Tamassia:

Produzir é fácil, muito fácil, vender é um pouco menos fácil, mas ter lucro atrativo com a venda da produção é onde a porca torce o rabo!

Mas será que é o preço de mercado baixo ou os custos de produção elevados? Em minha opinião o segundo fator é o mais significante quando a grande maioria dos piscicultores são apenas cuidadores e entregadores de peixes para os consumidores intermediários. Nesta situação a presença de uma extensão rural pública é muito importante, pois ajuda o piscicultor a utilizar as vantagens competitivas locais e assim reduzir os custos de produção. Mas atualmente com desestruturação da extensão rural pública, a assistência técnica está sendo suprida pelos vendedores de insumos e compradores/intermediários e ai temos ampla margem para o que se chama de “empurro-terapia” que leva na maior parte das vezes a uma elevação dos custos de produção. De uma maneira geral, até um passado muito recente, os serviços de extensão rural eram quase que exclusivamente voltados para a produção, com pequena ênfase para o gerenciamento, organização para o mercado. Teve até uma campanha governamental que dizia: “Plante que o governo garante!”.

 

AQUACULTURE BRASIL: Como está o processo de renovação dos técnicos especialistas em aquicultura da EPAGRI? Com as aposentadorias incentivadas dos últimos anos, a empresa planeja um processo de renovação do seu corpo técnico?
Sergio Tamassia: Infelizmente, como já mencionado, a piscicultura de água doce não é mais prioridade para a EPAGRI e a reposição dos técnicos que se aposentam é praticamente nula!